Atendendo a mais um pedido essa semana, do @rafucko (o melhor flooder do Twitter), que agora tem um blog BrinksTv, o tema é: “Clássicos do cinema que um estudante de audiovisual relapso e não cult TEM QUE VER. Mas que tem que ver MESMO. Bons!” As minhas escolhas foram bem aleatórias, talvez por isso tenha faltado um Kukrick, um Hitchcock, um Truffaut, mas fui fazendo escolhas pessoais, e acabei percebendo um padrão interessante, de filmes que utilizam a metalinguagem pra falar um pouco sobre a arte de fazer cinema. E mesmo quando não falam, são uma aula sobre cinema de tão incrível que eles são. E eis meu top de hoje:
5- O Ladrão de Bicicletas (Ladri di biciclette, 1948)

Esse é um filme absurdamente lindo, e comovente, que fala muito sobre a sua época, e é um perfeito exemplo do neo-realismo italiano. Sbrubbles, sbrubbles, I know. Mas acredito que quem assistir esse filme vai entender muito bem a influência desse filme no cinema como um todo. Posso fazer até um paralelo com “Amor sem escalas”, mas fica pra um post separado, qualquer dia desses (possivelmente nunca, já que aqui a gente é sincero). E pra quem tá contando os prêmios na temporada e se liga muito nisso, o filme concorreu ao oscar de roteiro, ganhou Globo de Ouro de filme estrangeiro, o prêmio de melhor filme do National Board of Review e dos Críticos de NY. Não é pouca coisa. Quer saber a história? Snif, aqui vai. Um pai e seu filho, snif, tem que achar uma bicicleta roubada, snif, fundamental para o trabalho que mantém o sustento da família. Aham, is that good. Lindo mesmo.
4- Cantando na Chuva (Singin’ in the Rain, 1952)

Primeiro filme metalinguístico. Lembro que escrevi “Poucos filmes tiveram a sagacidade de parodiar o próprio gênero e ainda assim, ser um musical de primeira grandeza. Não satisfeito, ainda criou números musicais que eternamente serão a imagem principal associada a esses filmes. Gene Kelly foi certamente um dos maiores gênios musicais da história, se não o maior. Dançando na chuva é um momento clássico, irresistível, delicioso, um amálgama de tudo de melhor que os musicais podem oferecer, sem ofender a inteligência do telespectador (erro comum nessa época), sem estranheza. É simplesmente fantástico.” quando escrevi sobre meu Top Musicais. É o suficiente? rs
3- Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd., 1950)

Mais metalinguagem. Mas primeiro quero dizer que adoro o título desse filme em português. E olha que é beeeeem diferente do título original, e eu normalmente acho isso ruim. Mas não nesse caso. O nome da rua não diria muita coisa pro público brasileiro e eles realmente usaram um título poético, mas que funcionou e é apropriado. Sobre o filme em si, a história de Norma Desmond, uma atriz da época do cinema mudo que vive reclusa numa mansão, crente crente que vai voltar a fazer sucesso. Ela conhece então um roteirista fracassado que vai ajuda-la a escrever um roteiro. Esse filme do Billy Wilder (que também fez o brilhante Quanto mais quente melhor) é sensacional, tem um roteiro muito bem construído, e uma das melhores atuações do cinema a não levar um Oscar, o da Gloria Swanson. Aliás, esse ano foi ferrado, porque ela concorreu com…
2- A Malvada (All About Eve, 1951)

… Bette Davis e Anne Baxter. E acreditem, nenhuma delas ganhou! Incrível, porque A Malvada é simplesmente um dos filmes mais bem atuados da história. Dos clássicos, é de longe um dos meus favoritos, e lembro de ficar com o queixo caído quando assisti. Ele é simplesmente fenomenal. A história, que hoje pode parecer banal, é sobre uma atriz que está envelhecendo em Hollywood, e que aos poucos começa a ser substituída pela evil life stealer Anne Baxter. Bette Davis é certamente uma das melhores atrizes da história, e ela não ter esse Oscar na estante é um absurdo sem igual. E perder pra Judy Holliday, convenhamos. Era muita atriz boa, e todas dividiram os votos. Mas esse eu recomendo de olhos fechados. E by the way, essa loirinha aí na foto é a Marylin Monroe em começo de carreira. E engraçado como mesmo atuando como uma porta, ela ilumina a tela. Quase que literamente. Difícil de explicar, é magnetismo total.
1- Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941)

E o melhor filme de todos os tempos também não ganhou Oscar. Mas esse é porque tem um babado por trás, vou contar só pra vocês. Parece que o Cidadão Kane era inspirado num cara chamado William Randolph Hearst, e que Rosebud, palavra chave no filme, seria uma referência ao clitoris (ewwww) da amante do cara, Marion Davis. O cara, um magnata, mega poderoso, fez de tudo pro filme ser um fracasso e não ganhar o Oscar. Mas sei lá, né? Tudo fofoca de bastidores. Fato que o filme é uma aula sobre como fazer um filme. Talvez não tanto pelo processo (parece que demorou 365 dias pra filmar, um cadinho demais pro meu gosto), mas cada frame desse filme foi muito bem calculado. Fica evidente que nunca ligaram a câmera e simplesmente filmaram. O uso da profundidade, e sbrubles, sbrubles, e tudo que a professora dizia na aula de História do Cinema, é tudo verdade. Tá tudo, lá, assistam porque nesse filme, o Orson Welles realmente se superou.
BONUS
Navalha Na Carne (1969)

Também já escrevi sobre ele, e vou copiar porque tenho muito trabalho, rs. “Esse filme foi uma ótima surpresa. Segundo a nossa pesquisa era pra ser estereotipado, e uma representação negativa. Por isso foi tão estranho ver o filme e perceber que é FODA. Um dos melhores filmes brasileiros que eu já vi. E pensar que isso foi feito em 69, (sem trocadilhos numéricos), sendo que o AI5 entrou em 68, plena ditadura militar… eu confesso que não faço ideia de como esse filme foi feito. O elenco é perfeito, com Emiliano Queiroz como o Veludo, Jece Valadão como Vado e Glauce Rocha como NORMA SUELY. Ok, quem viu o filme sabe que esse nome virou quase um bordão. É ótimo. E mostra uma coisa muito bacana do cinema, que as vezes você não precisa de muito pra conseguir fazer um filme digno de ser clássico. Basta um ótimo roteiro, personagens muito bem construídos e atores sensacionais. Fácil, né? O filme mostra a interação da “puta, do cafetão e do viado”, três personagens típicos do submundo, mais um tema típico do universo GLS no cinema. É mais um de tantos filmes baseados em peça, o que me faz pensar que os dramaturgos e escritores de livro (nesse caso Plínio Marcos, mas adicione a ele Nelson Rodrigues, Caio Fernando Abreu, Lúcio Cardoso). E gosto muito quando a Andrea Ormond diz que o Vando tem que lidar com o masculino de uma forma diferente. É bem bacana, e acho que nem o cinema mundial conseguiu algo tão contundente na abordagem homossexual quando esse filme eo próximo do top…”