Porque gays e lésbicas tem dificuldade de se controlar quando se vêem retratados no cinema?

Outubro 29, 2010

Eu era pra ter escrito esse post logo após o Festival do Rio mas a vida de xibata anda ocupando meu planejamento bloguesco, se é que você, querido wicked leitor, me entende. Mas hoje finalmente resolvi arrumar um tempinho pra escrever de um assunto um tanto quanto polêmico. Vê-se pelo tamanho do título do post, não é mesmo? E pra quem leu e não entendeu nada, vou explicar direitinho aqui minha mais nova tese.

Tudo começou quando fui assistir o novo filme do diretor Julio Medem, Um quarto em Roma (Habitacion en Roma, que teve o trailer postado aqui), durante o Festival do Rio, no Vivo Gávea. Trata-se de um cinema de shopping, com público A, no estilo playboyzinho-cult-bacaninha. Pelo menos é a imagem que as pessoas de fora tem da Gávea e de seus moradores. Anyway, eu já não me impressiono com o fato de que as pessoas escolhem seus filmes aleatoriamente no Festival, mas me deixou extremamente irritada que um casal de uns 50 anos, sentado ao meu lado, não calasse a porra da boca porque entraram no filme “errado”! Pra quem não sabe o filme se passa durante uma noite de sexo casual entre duas mulheres, uma espanhola (a excelente Elena Anaya) e uma russa (a belíssima Natasha Yarovenko, que deixa a desejar. Por mais que o filme seja todo em tom teatral, ela não segura em cenas importantes). Me impressionou que o filme incomodou principalmente o marido, que ao sentir sua masculinidade ameaçada, não parava quieto na cadeira e reclamava o tempo inteiro do filme. Um desconforto óbvio as cenas de nudez e sexo entre duas mulheres lindas. O que é muito estranho… O normal do homem heterossexual seria ficar quietinho, apreciando as cenas, até sua mulher, em meio a grande revolta, pedir pra se retirar do cinema. Mas nope, foi ele quem aos 40 minutos deu um basta.

Sexo e nudez com naturalidade em "Um Quarto em Roma"

 

Ufa! Finalmente eu ia poder assistir o filme sem ficar me sentindo incomodada com o bate-bate na cadeira, a falação, e o desconforto palpável pelo tema. O que mal ou bem acabou me afetando. E nisso eu volto mais tarde, pra dar credibilidade a minha própria teoria.

O resto do filme foi todo no silêncio e na paz, com direito a palmas nos créditos finais. Achei meio “too much” as palmas, não colaborei com as mesmas, mas gostei do filme. Obviamente tem seus defeitos e passa longe dos maravilhosos “Os amantes do círculo Polar” e “Lúcia e o sexo”, do mesmo diretor. Ainda assim, por um acaso do destino, eu tive que trabalhar em Botafogo no dia seguinte e achei que era um sinal o filme começar bem na hora que eu estaria liberada. Resolvi assistir outra vez, sem o casal homofóbico, e na cia de amigas e a fancharada (mais algumas bibas) que eu tinha certeza que marcariam presença no Estação Botafogo.

Achei que assistiria o filme na paz, sem ficar tensa com comentários, ou com gente me sacudindo e falando sem parar durante o filme. Ledo engano! Começou até bem, mas o filme não agradou. Até ai tudo bem, mas o que realmente me incomodou foram as risadas, os aplausos, a falação, as piadinhas… tudo isso durante o filme! Muita falta de respeito dos tais “cult-bacaninhas”.

Mas sabe o que mais me impressionou? Foi minha conclusão/tese de que gays e lésbicas não sabem ter modos quando estão em sessões de filmes gls, onde sabem que vão estar rodeados por “irmãos e irmãs”. Eu realmente acho que se essas mesmas pessoas estivessem num cinema qualquer, assistindo um filme hetero, elas estariam quietinhas, ainda que não gostassem do filme. O problema é que a sessão quando está povoada de bicha e sapatão, fica todo mundo achando que tá no Show do Gongo e começam a palhaçada.

É só apagar as luzes que começam as piadinhas, impressionante! Já vi uma biba abrir um leque do meu tamanho no meio do filme. Levei um susto do car*lho e perdi completamente a concentração. Pode uma coisa dessas? E muitos vão falar que fizeram isso porque o filme não era bom, não estavam gostando e todo esse bla bla bla, mas isso não é uma desculpa boa, concorda? Pessoas como eu pagaram pra assistir o filme e por incrível que pareça *não* estão afim de ouvir seus comentáriozinhos cretinos. Guarde isso pra uma crítica a la Wicked Twins no dia seguinte.

Cena de "Cidade dos Sonhos"

Mas a verdade verdadeira (rs) é que nos ver na telona é de alguma forma desconcertante. Não estamos acostumados e acabamos agindo como criancinhas no playground quando isso acontece. E não me excluo desse grupo exatamente porque o casal e seus comentários me deixaram um tanto tensa na primeira sessão. Lembro bem também de quando fiz piadinhas (em voz baixa, ok?) pro meu amigo que estava comigo na sessão de “Cidade dos Sonhos”, quando a cena lés me pegou de surpresa. Simplesmente agimos de uma maneira diferente.

No próprio “Um quarto em Roma”, nessa sessão, em 5 minutos de filme, quando ainda não ficou duvidoso (em termos de bom ou ruim, seja lá a conclusão que chegue a respeito do filme), rola o primeiro beijo. Só essa cena já foi o suficiente pra uma fancha-sem-noção mandar uma piadinha, e as amigas fanchinhas todas com aquele risinho nervoso, sabe? Chego a conclusão de que gays e lésbicas não sabem se ver no cinema. É raro, eu admito. Estamos constantemente queer starved (eu então…) e torna-se algo atípico ver aqueles personagens fazendo coisas que a gente (aka rainbow people) faz.

O Fil até me questionou sobre isso, dizendo que atualmente existem muitos filmes focados em personagens gays, que abordam de maneira natural, etc, etc. Mas a questão é que a maioria desses filmes se encontram na internet, e a menos que você seja escolado em torrents e sites de download e compartilhamento, você não consegue acesso a esses títulos. E convenhamos, a maioria deles são assistidos em casa, no escurinho e silêncio da privacidade de nossos quartos.

"Quando a noite cai", de Patricia Rozema.

Lembro quando ainda era um bebê (uns 17 anos) e assisti “intencionalmente” meu primeiro filme lésbico, Quando a noite cai (When night is falling). Assisti eu, minha melhor amiga (que tinha minha mesma idade, e estava na mesma situação que eu), e uma amiga mais velha, que estava nos mostrando seu amado filme. Lembro que fiquei desconcertada, e minha amiga também fez piadinhas que me fizeram rir de nervoso quase durante o filme inteiro. Óbvio que nossa hostess ficou irritada, e com razão. Parecia que não estávamos levando o filme querido dela a sério. Mas a verdade é que não sabíamos como…

Pra concluir logo esse post, que ninguém mais deve estar aguentando ler, acho que é preciso existir essa consciência pra que esse tipo de coisa se torne mais natural e pare por aí. Afinal foi insuportável aguentar aquele público infantil e mal educado por quase 2 horas. E o pior, com a atitude deles, fica difícil gostar do filme. Minhas amigas, que estavam comigo, não gostaram, mas as duas admitiram que o comportamento do público atrapalhou, e acabou influenciando um pouco. Elas tinham suas críticas, e provavelmente não teriam gostado anyway, mas é sempre bom poder tirar suas próprias conclusões sem a pressão de risadas, sarcasmo, e palmas durante cenas polêmicas.

Consigo entender, porque como já disse, eu também já agi assim, mas é hora de crescer, pessoal! Assim como já temos Gus Van Sant, Todd Haynes, Greg Araki, e cia, vamos ter também Lisa Cholodenko e… e… ok, não temos “grandes” diretoras lésbicas, mas os filmes vão vir, e nós vamos nos acostumar a assistí-los sem vergonha, sem risinhos nervosos, sem desconforto e o mais importante: sem falta de educação.

Um desabafo by,

Rafinha aka Wicked sis.

 


Retrospectiva do Festival do Rio – 1a Semana

Outubro 1, 2010

1- A Enseada – 8.0
2- Filho da Babilônia – 6.0
3- Buraco Negro – 5.0
4- Zona Sur – 3.0
5- Nossa Vida Exposta – 7.0
6- Copacabana – 7.0
7- A Mulher sem piano – 1.5
8- Cortina de Fumaça – 6.5
9- A Empregada – 8.0
10- Comer Rezar Amar – 7.0
11- Norberto Apenas Tarde – 7.0
12- Complexo: Universo Paralelo – 6.0
13- Sinto sua falta – 7.0
14- A Suprema Felicidade – 5.0
15- Federal – 0.0
16- Pó – 7.5
17- Viúva sempre as quintas – 9.0
18- Estigmas – 7.0
19- Terça depois do Natal – 9.0
20 – Aniversário de David – 6.5
21- A Encruzilhada – 7.0
22- Isto é o amor – 8.0
23- A Vida dos Peixes – 8.5
24- Amores Imaginários – 8.5
25- Kaboon – 8.5
26- Água Fria do Mar – 1.0
27- King’s Road – 5.5
28- Essential Killing – 8.0
29 – Elvis e Madona – 5.0
30- Beijos – 7.0
31- Líbano – 9.0
32- Biblioteca Paschal – 7.5
33- Protektor – 6.5
34- Of God and Men – 8.0
35- Monstros – 4.0
36- Mine Vaganti – 7.5
37- Filme Inacabado – 8.0
38- Route Irish – 6.5
39- Invenção da Carne – 0.0
40- Minhas Mães e meu pai – 9.0


Festival Do Rio – Dia 3 (parte 1)

Setembro 27, 2010

21- O Aniversário de David (Il Compleanno, 2010, Itália)

Matteo (Massimo Poggio) é um analista bem sucedido, de 40 anos, casado com Francesca (Maria de Medeiros, e que por ter tido uma infância difícil, nunca se permitiu ser irresponsável, ou “vagabundo”, como ele mesmo coloca. Sempre se obrigou a estudar e trabalhar para conseguir os seus objetivos sem depender dos outros, e com isso criou um complexo de superioridade. Matteo vive aparentemente bem, devotado ao trabalho, a esposa e a filha, até que durante as férias de verão, conhece o filho de um casal de amigos, David, um modelo com conteúdo, despertando o seu interesse até então adormecido.

A ação do filme se passa exatamente nessas férias de verão, onde os dois casais, com seus filhos, alugaram uma casa numa praia da Itália. A relação é muito bem estabelecida e envolvente, mas conforme as fachadas vão ruindo e os relacionamentos se deteriorando, a direção carrega um pouco no drama e o filme fica bem menos interessante. O fato do ator brasileiro iniciante Thyago Alves (um cover do Jesus Luz, e que interpreta David) ser jogado no meio de um elenco afiado e experiente, só ajuda a quebrar ainda mais a história do meio pro final. Ainda assim, Poggio e Medeiros sustentam o interesse na trama até o final, que é muito mais dramático do que deveria e com uma solução fácil demais, quase preguiçosa. Uma pena, mas não é de todo ruim.

Nota: 6.5

22- A Encruzilhada (Kavsak, 2010, Turquia)

Uma boa surpresa a Turquia. O filme acompanha a vida de diversos personagens que se cruzam ao longo da trama. Eu sei, seu sei, essa é a trama de Crash, Magnólia, e tantos outros filmes, mas aqui ocorre sem exageros. Guven trabalha em uma empresa de contabilidade, e não participa de nenhuma atividade social alegando que sua mulher e filha são muito apegadas, mas na verdade ele mora sozinho. Seu segredo é ameaçado quando uma companheira de trabalho, Arzu, se muda para a sua sala e percebe incongruências na sua história. Ela mesma está passando por um divórcio difícil e tem que se dividir entre o trabalho, a filha, e o ex-marido alcólatra. No trabalho, um jovem que precisa desesperadamente de dinheiro pra ajudar a irmã que está no hospital, chantageia Guven para encobrir um desvio de dinheiro.

O filme poderia passar desapercebido não fosse a grande eficiência do elenco, que transformam essa história, que poderia ser pesada e melodramática em uma coleção de personagens interessantes. Não simpatizamos com Guven no princípio, mas a interpretação de Güven Kiraç é comovente, e conforme vamos conhecendo os detalhes que o levaram a mentir sobre a família, e o que realmente aconteceu com eles, vão conquistando o expectador, pouco a pouco. O mesmo pode ser dito sobre Sezin Akbasogullari, que a princípio tem toda a simpatia e pena por ser mãe divorciada de um alcólatra que resiste em deixar a família de lado, mas que ao remexer na vida do colega de trabalho, tentando esquecer seus próprios problemas, vai ganhando dimensões bem menos óbvias.

O roteiro tem alguns deslizes e forçações de barra, mas é um bom filme, graças a direção segura e ao ótimo elenco.

Nota: 7.0

23- Isto é o amor (This is love, 2009, Alemanha)

Meu primeiro filme alemão do Festival, que em outros anos tanto me trouxe alegrias. E apesar desse título, o filme passa longe de ser uma comédia romântica, ou até mesmo um romance no sentido mais convencional da palavra.

Corinna Harfouch interpreta Maggie, uma policial que foi abandonada pelo marido sem nenhuma explicação 16 anos atrás, e desde então se afastou da filha e se tornou uma alcólatra. No trabalho, se depara com o caso de Chris (Jens Albinus), um homem que tentando ajudar uma menina vietnamisa a encontrar uma família, acabou arranjando mais problemas do que poderia resolver, e que foi preso ao tentar se matar jogando seu carro contra um caminhão. Maggie vai ter que tentar elucidar o que aconteceu com a menina enquanto lida com seus próprios demônios.

Assim como a memória de um bêbado, vamos entendendo aos poucos como Maggie chegou naquela situação, onde parece não se importar com trabalho, com a filha, e é um fantasma do que foi um dia. Ela chega a dizer que a sobriedade é uma alucinação gerada pela abstinência de bebida alcólica. Ao mesmo tempo, vamos entendendo o que se passou na vida de Chris, que se recusa a contar sua história inteira, comer, beber água, e pergunta constantemente a quanto tempo está preso. São dois personagens interessantíssimos e bem construídos, não são fáceis de se relacionar, ou sequer de gerar qualquer empatia. A relação de Chris com a menina vietnamisa Jenjira é sempre dúbia, o que nos leva a não confiar plenamente nele, nem nela. Já Maggie é ainda mais complicada, já que nenhuma de suas atitudes nos levam a simpatizar com ela. Mas conforme o desenrolar da história, percebemos que nada é tão simples, ninguém é tão bom ou mal. E o final é bastante forte e reflexivo. Certamente um dos que valem a pena conferir no Festival.

Nota: 8.8


Mais Festival…

Setembro 26, 2010

O Festival do Rio enfim começou, e a sessão se abertura foi o novo filme do Arnaldo Jabor, A Suprema Felicidade.

14- A Suprema Felicidade (2010, Brasil)

Arnaldo Jabor parece preso nos anos 70 e 80, quando fazia filmes como Eu sei que vou te amar, Eu te Amo, O Casamento, Toda Nudez será castigada. Depois de quase 20 anos sem dirigir nada, ele enfim volta com este A Suprema Felicidade, que sinto dizer, é bastante irregular. O filme mostra 3 diferentes épocas do protagonista, a infância, adolescência e juventude, e como ele se relaciona com família, amigos, amores. O problema é que o filme não tem nenhuma coesão. Os pais, interpretados por Mariana Lima e Dan Stulbach, aparentemente estão numa peça de teatro e esqueceram que era para ser um filme. Se serve de concolo, a direção de arte da casa em que eles vivem, e principalmente os diálogos, só nos fazem sentir mais ainda a teatralidade. Me irritou profundamente os “diálogos” onde personagens, com olhos marejados, olham para a distância e começam a recitar o roteiro como se fosse um monólogo, para em seguida lembrar que deveria estar falando com outra pessoa. Ainda assim, o filme tem um grande trunfo, que é Marco Nanini. Enquanto ele está em cena, quase perdoamos os outros defeitos. Jayme Matarazzo foi uma boa surpresa, ele está bem o suficiente pra nos manter interessados no filme, mesmo quando não achamos nenhuma função para personagens secundários. Meia hora a menos e uma enxugada do roteiro fariam maravilhas por esse filme.

Nota: 5.0

15- Federal (2010, Brasil)

Já esse filme nacional não tem desculpa nenhuma. De longe, o pior do Festival, quiçá do ano. Não existe nenhuma desculpa para esse filme ter sido feito, para que o elenco, que conta com Michael Madson (Cães de Aluguel, Kill Bill) e Selton Mello, tenha aceitado entrar numa furada sem tamanho como essa. O roteiro é ridículo, as atuações são canhestras, a iluminação é primária, e principalmente, a direção é amadora. Não sei quem disse pra Erik de Castro que ele tinha o que era preciso pra fazer um filme de ação policial, mas essa pessoa mentiu. Não tem um plano que valha a pena, e assistir esse filme me deu vergonha alheia por todos os envolvidos. Não é a toa que o filme foi rodado em 2006 e só agora está passando em um Festival do Rio, e nunca entrando em cartaz. Se tem algum filme que merece ficar na lata e nunca sair, é esse. Ou façam um drinking game, uma dose de tequila a cada vez que o diretor fizer um plano deselegante, todo mundo bebe. Eu detestei o filme nesse nível, a querer que voltem a vender bebida alcólica nas salas de cinema.

Nota: 0.0

16- Casa de Ferreiro Espeto de Pau (108 Cuchillo de Palo, 2010, Espanha)

Documentário sobre o tio da diretora Renate Costa, Rodolfo, que supostamente morreu “de tristeza” quando ela era pequena. Ao pesquisar a vida dele, Renate descobriu que o tio era homossexual e fora preso durante a ditadura paraguaia. É interessante ver como ela vai redescobrindo o tio, e como sua imagem era apagada pela família preconceituosa. Tão interessante quanto ver como Rodolfo vai se desvendando, é a relação de Renate com seu pai homofóbico, e em como ele acredita piamente que fez a coisa certa ao não aceitar o seu irmão. Também é chocante acompanhar os detalhes da tortura da ditadura, que não apenas prendia os homossexuais como criavam uma lista com o nome de todos eles e pregavam nas paredes de Igrejas, bancos, mercados, para que eles passassem por uma humilhação pública e moral além das físicas impostas na cadeia. Um bom documentário.

Nota: 7.5

17- Pó (Dust, 2009, Luxemburgo / Áustria)

Um bonito filme, que me surpreendeu, mesmo que não tenha me cativado completamente. O filme conta a história de um casal de irmãos gêmeos que vivem sozinhos numa casa afastada, dentro do seu próprio mundo, e tudo muda quando eles encontram um homem baleado. A inserção do terceiro elemento vai modificar a forma como eles se relacionam, colocando regras sociais e afetivas que antes não importavam dentro desse mundo. A fotografia e a direção são extremamente eficientes ao criar esse mundo livre, com seu próprio tempo, sua própria luz. Vale a pena ver.

Nota: 7,5

18- Viúvas sempre as quintas (Las Viúdas de los jueves, 2010, Argentina / Espanha)

Esse é um dos grandes filmes do Festival até agora. O cinema argentino sabe contar uma história com eficiência, principalmente com um diretor do calibre do Marcelo Piñeyro. Seus últimos três filmes, Plata Quemada, Kamchatka e O que você faria? já demostravam a sua habilidade em construir uma narrativa bem feita, e Viúvas segue o mesmo caminho. O elenco aqui também é maravilhoso, destaco o sempre ótimo Leonardo Sbaraglia. A história se passa em um condomínio de luxo, pouco antes da crise econômica que atingiu a Argentina em 2001. Quatro casais tem suas vidas descontruídas entre dois momentos, com a narrativa pouco a pouco desenvolvendo os personagens e preenchendo as lacunas da história. Enfim, ótimo roteiro, atuações, direção, trilha, edição. Imperdível no Festival.

Nota: 9.0

19- Estigmas (Estigmas, 2010, Espanha)

Filme interessante, com uma fotografia em preto e branco muito bonita. A história é sobre um ex-presidiário de bom coração, alcólatra, que determinado dia acorda com feridas nas mãos que lembram as chagas de cristo. Sem saber como elas surgiram, e como elas não cicatrizam, algumas pessoas o vêem como um santo, enquanto outros sentem repulsa. O filme acaba desandando um pouco no terceiro ato, mas a história é interessante, baseada em um quadrinho espanhol, e tem ótima atuação de Manuel Martinez, que parece um urso, mas passa toda a candura que o personagem precisa com o seu olhar.

Nota: 7.0

20- Terça depois do Natal (Marti, Dupa Craciun, 2009, Romênia)

Outro grande Destaque do Festival, e esse possivelmente nunca vá estrear no Brasil, o que é uma pena. O cinema romeno, que chamou a atenção do mundo com 4 meses, 3 semanas e 2 dias alguns anos atrás, faz mais um filme envolvente e forte. A direção de Radu Muntean é possivelmente uma das melhores que assisti até agora. Os planos sequências sabem ser naturais, e dão a sensação de estarmos presentes, nos apaixonando quando preciso, nos comovendo, presenciando as discussões e sofrendo com os personagens. Que esses planos são bonitos, difíceis, causam admiração, não é novidade. Mas aqui eles são muito mais do que isso, eles são orgânicos, como se não houvesse outra forma de se contar essa história.

Paul (Mimi Branescu, maravilhoso) é casado com Adriana (Mirela Oprisor, perfeita), com quem tem uma filha, mas mantêm um caso com a dentista Raluca (Maria Popistasu). Quando as duas ficam cara a cara no consultório, Paul percebe que vai ter que escolher entre uma das duas. Eu sei que a premissa não promete muito, mas os diálogos e a forma como o roteiro vai trabalhando esses personagens, suas expectativas, suas relações, é arrebatador. O elenco todo está mais do que perfeito, auxilidados por um ótimo roteiro e um diretor que sabe muito bem o que faz.

Nota: 9.0

Se tivéssemos um placar, diria que Romênia e Argentina estão 1×1. E o Brasil está -2, o que é uma pena, num Festival do Rio.


Preliminares do Festival do Rio – Dia 4

Setembro 23, 2010

Dia cansativo de alegria nos bastidores do Festival do Rio. Depois de muito atraso, enfim saiu a revista impressa que contém as sinopses e a programação. Muitos cinéfilos esperavam por isso pra fazer sua agenda pras próximas duas semanas (eu incluído). Agora tem que ter paciência e um grande poder de organização pra encaixar todos os filmes (ou a maioria) e torcer pra não deixar passar nada fundamental sem ser visto (coisa impossível). Com minha ampla experiência de anos anteriores, sei que só funciono com uma agenda e muitos post its. A agenda do Mac e do Iphone certamente são um a mais nessa hora. Agora vamos aos filmes de ontem:

10- Comer Rezar Amar (Eat, Pray, Love, 2010, Estados Unidos)

Eu sei, esse não é um típico filme de Festival, aliás o filme vai estrear antes que o evento acabe. Mas já que teve cabine, tá tudo valendo. O filme é o segundo do diretor Ryan Murphy, (de Correndo com Tesouras) que é também o criador das séries Nip/Tuck e Glee. Baseado no best-seller de mesmo nome, o roteiro conta a história biográfica de Elizabeth Gilbert, uma escritora que decide abandonar seu casamento e viajar pela Itália, Índia e Indonésia, buscando o prazer pessoal, espiritual e o equilíbrio entre essas duas coisas. É um alívio enorme ver um filme voltado pro público feminino que não seja sobre uma mulher pós-moderna, dedicada exclusivamente ao trabalho, e que não consegue achar um homem. Comer Rezar Amar é muito mais sobre o desprendimento, sobre o desapego, auto-conhecimento, reflexão, perdão. É claro que no processo ela vai se envolver com Billy Crudup, James Franco, Javier Bardem… Mas ainda assim, esse não é o foco do filme. E como não poderia deixar de ser, é um filme da Julia Roberts. Quem ama ela vai continuar amando, quem não ama vai querer furar os tímpanos cada vez que ela gargalhar. Mas é inegável que essa é sua melhor interpretação desde Closer. O filme tem alguns problemas de ritmo. A parte da Índia, cujo foco principal é a meditação, é a menos interessante. Murphy não conseguiu capturar o humor da autora nessa parte, nem do personagem de Richard Jenkins. E o relacionamento com Bardem não é tão bem desenvolvido quanto merecia, mas depois de 2h30 de filme, era difícil esperar mais. Ainda assim, o desenvolvimento do personagem é interessante, e pra quem não esperar uma comédia romântica, e sim uma jornada de auto conhecimento, vai curtir o filme.

Nota: 7.0

11- Norberto Apenas Tarde (Norberto Apenas Tarde, 2010, Uruguai / Argentina)

Sinopse: “Após ser demitido de uma empresa onde assumia um importante cargo administrativo, Norberto decide tentar a sorte no ramo imobiliário. Ele adia o quanto pode o momento de contar à esposa a má notícia. Contratado como corretor, é incentivado pelo chefe a fazer um curso de assertividade para melhorar a timidez e começa a frequentar aulas de teatro num curso para principiantes. No entanto, seu progresso é lento e seus clientes, assim como sua mulher, continuam sem acreditar em nada do que ele diz. Em meio a este processo, porém, Norberto descobre que é possível ganhar respeito e até dar um bom grito.”Acho válido comentar que o diretor é o Daniel Heddler, mas conhecido por ser o ótimo ator de Abraço Partido e Direitos de Família. O filme não chega a ser maravilhoso, mas o personagem do Norberto é interessante na sua forma de lidar com as mudanças, em como ele se antecipa a elas, mas não lida muito bem com isso. Não é tão bom quanto os filmes do Daniel Burman, mas é uma estréia promissora pro Hendler. Comparado a estréia do Gael García Bernal então, um filme chamado Déficit que passou aqui no Festival de 2007, o cara é um gênio! Deu pra perder um pouco do trauma de atores latinos na direção.

Nota: 7.0

12- Complexo: Universo Paralelo (2010, Brasil)

Inevitável pensar ao entrar na sala: Mais um documentário sobre favela. Infelizmente, o pensamento não muda muito ao sair. No início, somos avisados por uma cartela que os diretores são dois irmãos portugueses que passaram um tempo no Complexo do Alemão e documentaram essa estadia entrevistando os personagens do filme. Cartela inútil, pois em momento algum é utilizado o fato de ser uma visão estrangeira. Ainda assim, algumas das imagens inseridas são bem fortes, e os depoimentos, por mais que não acrescentem muito ao tema, tem momentos interessantes.

Nota: 6.0

13- Sinto sua Falta (Te extraño, 2010, Argentina / México)

Sinopse: “Aos 15 anos, Javier é forçado a deixar a Argentina por causa da ditadura militar dos anos 70. Quando Adrián, seu irmão de 20 anos, “desaparece” em Buenos Aires, o adolescente é mandado pelos pais para viver com parentes no México. O assassinato de Adrián, que comandava um pequeno grupo de jovens dissidentes políticos, se torna uma sombra na vida de Javier. Entre a admiração e a inveja, ele vive com o peso de fazer jus à memória do irmão e a saudade de sua presença. Seu sentimento é de que Adrián é quem devia estar vivo, e não ele.” Confesso que prefiro Kamchatka quando o assunto é ditadura Argentina, mas eu acredito que é um tema que ainda pode render bons frutos. Sinto sua falta não é excepcional, também não acrescenta muito ao tema, mas a relação entre os personagens é inteligente o suficiente pra manter o interesse no filme. A Argentina sabe muito bem desconstruir uma família, o que só me deixa mais curioso pelos próximos filmes da Mostra dedicada a eles.

Nota: 7.0


Preliminares do Festival do Rio – Dia 3

Setembro 21, 2010

Depois de tirar o domingo de folga, hoje voltei pras cabines do Festival, enquanto monto minha programação pras próximas duas semanas. São muitos filmes, e como todo bom cinéfilo, tenho que tentar balancear os filmes que quero muito ver, mas sei que vão estrear, com as coisas mais obscuras que certamente nunca virão novamente pro Brasil, mas que em compensação, muitas vezes não valem a pena. Festival é um pouco isso, achar aquela pérola, que você só vai ver por ali. O que não significa que eu não vá ver o filme novo da Sofia Coppola. Mas vamos aos filmes do dia:

7- A Mulher Sem Piano (La mujer sin piano, 2009, Espanha/França)

Definitivamente o pior filme que eu vi até agora. Além de chato, os personagens são totalmente desprovidos de carisma, a fotografia é óbvia, qualquer tema que o filme tente abordar fica totalmente superficial. O diretor Javier Rebollo até tenta criar uns planos mais interessantes, mas é tudo meio lugar comum. As atuações são boas, mas como a história não engata, o elenco não tem muito o que fazer. O roteiro ruim é sobre uma depiladora/dona de casa que tem uma vida enfadonha, e certa noite decide fugir, arruma uma mala e vai pra uma estação de trem. A trama se desenrola (ou não, depende do ponto de vista) no decorrer dessa noite, onde ela vai conhecer umas figuras estranhas, e vai se conhecer um pouco mais também. Uma espécie de crítica pra sociedade, pra tv, pra guerra, pra frieza do ser humano num mundo pós moderno, e nada aprofundado.

Nota: 1.5

8- Cortina de Fumaça (2009, Brasil)

Primeiro filme brasileiro do Festival. Cortina de Fumaça é um documentário sobre a legalização das drogas, as políticas governamentais de proibição, sobre os efeitos do consumo e as consequências de todas essas questões para a sociedade. Em primeiro lugar, tenho que deixar claro que o filme é bem tendencioso. Todas as entrevistas apontam pro mesmo lado, proibir é ruim, utilizar não é tão prejudicial quanto a mídia gosta de mostrar. Acho o documentário ingênuo também ao colocar as informações sobre as drogas são sempre as mesmas. Num mundo com internet, tv a cabo e afins, quem quer se aprofundar no tema consegue facilmente, e só fica com a informação senso comum quem quer. O debate da legalização não está no primeiro passo. Ainda tem muito o que se discutir com a sociedade, mas não se pode dizer que esse tema é totalmente inédito. Ainda assim, o filme tem depoimentos muito interessantes, e alguns argumentos que acrescentam bastante à discussão sobre as drogas e as políticas públicas que eles tanto recriminam. Vale a pena ver.

Nota: 6.5

9- A Empregada (Hanyo, 2010, Coréia do Sul)

Esse filme quase pode ser considerado uma pérola do Festival. Dificilmente vai estrear por aqui, e é um melodrama asiático muito bom. Acho que o final, embora condizente com o decorrer do filme, fica um pouco pesado demais. Mas no geral, o filme cumpre bem o seu papel. O elenco feminino particularmente me impressionou bastante. A história (peguem os lenços) é sobre uma empregada boazinha que é seduzida pelo patrão milionário, causando a ira da esposa traída, grávida de gêmeos, e da sogra malvada. Pra piorar a situação, a empregada fica grávida, e as mulheres da família não vão querer deixar o beber nascer. Eu sei, falando assim não parece nada demais, mas a direção é muito boa, os planos são belíssimos e exagerados, o roteiro, apesar de carregado, tem alguns momentos leves, e a história é boa o suficiente pra nos manter fisgados até o fim.

Nota: 7.5


Preliminares do Festival do Rio – Dia 01 e 02

Setembro 19, 2010

Bem, meu primeiro dia de Festival do Rio… o que? Pra você não começou ainda? Ok, você não é imprensa, eu entendo. Então vou mudar pra: Meu primeiro dia de Preliminares do Festival do Rio… Melhor, né? Assim não confunde. Então, colocarei aqui meu dia-a-dia do Festival, assim quem quiser alguma dica sobre o que assistir, o que não assistir, ou simplesmente quiser acompanhar os filmes que eu estou vendo, vai poder estar sempre atualizado. E é mais uma forma de deixar nossa Wicked Sis com invejinha por não estar aqui, e sim nas Zoropa. Ok, eu que tô com inveja, mas não gosto de verbalizar isso.

1- A Enseada (The Cove, 2009, EUA)

Injusto começar o Festival assistindo um documentário vencedor do Oscar, né? Já eleva as expectativas lá pro alto e tenho pena do filme que seguir esse. Mas eu normalmente me preocupo em começar e terminar bem, porque mesmo que tenha um monte de merda no meio, eu vou sempre ficar com uma boa impressão do Festival. A Enseada, pra quem não sabe, é um documentário sobre a matança de golfinhos no Japão. Eles mostram como os japoneses utilizam um sistema de sons pra encurralar golfinhos numa enseada escondida, lá selecionam os que parecem com o Flipper pra mandar pra parques aquáticos, tipo Seaworld. Os outros, incluindo bebês golfinhos, são massacrados com uns arpões gigantes, numa cena fortíssima, triste demais, onde a água da enseada fica totalmente vermelha com o sangue dos golfinhos. Acho que a retórica do filme não é perfeita, não acho que eles tentem o suficiente entrevistar os japoneses, nem apresentar argumentos muito válidos pra combater o que os japoneses dizem. Por exemplo, quando as autoridades falam que eles matam golfinhos porque eles estão acabando com os peixes e está atrapalhando a atividade pesqueira, eles mostram uma ou outra delegação (incluindo a brasileira) de um congresso que eles mesmo admitem ser ineficientes, dizendo que isso esse argumento é ridículo. E provavelmente é, mas custava colocar um estudo, uma estatística, ou um pesquisar sério? Ou quando eles querem comprovar que comer golfinho não é uma questão cultural japonesa, eles vão pras ruas de Tokio e mostram umas 4 ou 5 pessoas falando que nunca comeram golfinho. Isso lá é forma de pesquisa? Mas a verdade é que as imagens com os golfinhos são tão fortes, e a forma narrativa como nós vamos sendo preparados pra isso é tão eficiente, que o melhor argumento que eles poderiam fazer é exatamente mostrar aquelas imagens. Nada parece ter explicação ou justificativa plausível depois daquilo. É um bom documentário-denúncia. Só nos resta torcer pra que ele tenha atingido o seu objetivo e tenha salvado alguns golfinhos.

Nota: 8.0

2- Filho da Babilônia (Son of Babylon, 2009, Iraque)

Esse foi o indicado do Iraque pro Oscar do ano que vem. Ele me lembrou um pouco de Central do Brasil, na medida do possível. Um menininho meio inocente, cruzando o país pobre a procura do seu pai com a ajuda de uma senhora idosa (nesse caso, a sua avó). Com a diferença que aqui é um país pós Guerra, depois que os Estados Unidos invadiram o Iraque pra acabar com o governo do Saddam. O filme parece bem determinado a mostrar a miséria e os estragos que o regime totalitarista de Saddam trouxe pra população iraquiana. Como as cartelas finais nos mostram, milhões de iraquianos foram presos e perseguidos por Saddam, e grande parte acabou em cemitérios coletivos, sem identificação, e sem a menor possibilidade da família encontrar os seus restos, ou de sequer saber o que aconteceu com a pessoa, se está vida ou morta. As pilhas de corpos me lembraram um pouco os campos de concentração da Segunda Guerra, enquanto a procura por alguém que foi levado por um governo totalitarista, sem você conseguir saber que paradeiro ele teve, me lembra muito nossas próprias questões com a ditadura. Mas o filme, em si, é mediano… A criancinha é muito boa, difícil não se envolver. Mas acho que o filme se preocupou muito em mostrar a situação do país, e muito pouco em contar uma história. Mas ainda assim é válido.

Nota: 6.0

3- Buraco Negro (L’autre Monde, 2010, França)

Esse é um filme francês, e isso já diz muita coisa. Lendo a sinopse, “O adolescente Gaspard passa o verão no sul da França com a namorada e um grupo de amigos. Tudo vai bem, até eles encontrarem um celular perdido. Indo atrás do dono, se deparam com o mesmo morto em uma estranha cerimônia de suicídio. Ao lado dele está, desacordada, a bela e sedutora Audrey. A moça de visual gótico logo atrai Gaspard, levando-o a adentrar um mundo virtual chamado Black Hole, onde ela vive uma vida paralela e atende pelo nome de Sam. Criando para si próprio um avatar, Gaspard se deixa seduzir pelo jogo dela, ignorando o perigo que o aguarda.”, vamos combinar que nada de muito normal poderia vir, né? O que me fez ver o filme? O comentário geral era que tinha o elenco mais bonito de todos os filmes que tinham sido anunciados até agora pras cabines. Sim, meus caros, críticos de cinema também podem ser fúteis. A história, que poderia gerar um filme de terror teen, vai mais pra um clima bizarro, com cenas de videogame, personagens góticos, contrastando com uma França ensolarada de verão. Durante boa parte da projeção, achei o filme meio enfadonho, mas lá pro final, vira mais um thriller psicológico, com algumas reviravoltas interessantes. O filme não é de todo ruim, mas não chega perto de ser um filmaço também.

Nota: 5.0

Aqui começa meu segundo dia:

4- Zona Sur (Zona Sur, 2009, Bolivia)

O Festival tem dessas coisas, né? Não lembro de nunca ter visto um filme boliviano na vida, e adoro ver coisas assim, nem que seja só pra entender um pouco melhor a cultura daquele país. Infelizmente, esse filme não é bom. Em primeiro lugar, o diretor decidiu que a câmera nunca poderia parar, ele está constantemente em traveling. Ou seja, se você tem labirintite, passe longe desse filme, porque ele não para de rodar, nem por uma cena. Isso poderia ser interessante se fosse ao menos justificado, mas nada na história leva a crer que faria sentido a camera rodar. A história é quase uma novela do Manoel Carlos. Nada acontece de muito relevante e constantemente as pessoas estão fazendo refeições, tomando cafezinhos, discutindo a situação econômica, estudos, preconceito, casamento. Ou seja, a câmera roda o tempo todo, dentro de um único cenário, que é uma casa de classe média-alta em decadência, onde nada de muito relevante acontece. Divertido, né? É um retrato de uma classe, muito parecida com a que temos no Brasil? Sim. É o suficiente pra ser interessante? Não. Gostei da Ninón de Castillo, que interpreta a mãe de uma família meio desconjuntada. Achei a história do filho, que perde um Toyotta num jogo de poker, a mãe grita com ele (e nem tanto, minha mãe teria me feito ver sangue se eu perdesse um carro no jogo), e depois pede desculpa por ter gritado. Mães-madames podem ser condescendentes, mas nem tanto, né?

Nota: 3.0

5- Nossa Vida Exposta (We live in public, 2009, EUA)

Taí um filme que eu não esperava nada e me surpreendeu. A sinopse anunciava um doc sobre pessoas que tinham sua vida exposta na internet, que passaria na mostra midnight. Mas o doc é muito mais do que isso, é focado na vida de Josh Harris, um cara que teve idéias brilhantes sobre a internet quando ninguém ainda considerava o impacto que isso teria em nossas vidas. Depois de ficar milionário do dia pra noite, e fundar uma das primeiras Tvs online do mundo, ele decidiu fazer um experimento. Construiu uma espécie de hotel big brother, onde 100 pessoas viveriam nesse hotel, sem poder sair, sendo filmadas o tempo todo, e teriam toda comida, bebida, drogas, e armas que quisessem. Ótima mistura, né? Pra melhorar a história, eles tinham que passar por interrogatórios que mais pareciam salas de tortura. Depois de experimentar bastante nos outros, ele decidiu fazer o mesmo consigo mesmo. Colocou zilhões de câmeras em seu apartamento, e ele e sua namorada Tânia começaram a viver seu próprio Big Brother online. Isso em 1999, bem antes da geração youtube. O bacana é exatamente isso, ver como ele pensou em coisas que seriam corriqueiras muito antes disso acontecer com a gente. O filme infelizmente não tem um desfecho tão interessante quanto o seu meio, o que dá uma sensação de que o filme não é muito bom. Mas só pelos experimentos que Josh fez nos anos 90, o filme já vale a pena.

Nota: 7.0

6- Copacabana (Copacabana, 2010, França)

Hora do filme francês do dia. Entre nós, os frequentadores do Festival, costumamos dizer que uma das obrigações que temos todo ano é de assistir pelo menos um filme da Isabelle Huppert. Tem ano que ela tem 4 filmes no festival, ou mais. Definitivamente, ela é o Selton Mello da França, passa o ano inteiro filmando, só assim. E ela é incrível demais. Não preciso nem citar os 1001 filmes que ela fez, não lembro de uma atuação ruim dela (mesmo que eu não ame tudo que ela faça, minha admiração por ela continua intocada). Mas não esperava muito de Copacabana não… Sabe o diretor Marc Fitoussi? Não? Nem eu. E me chame de pessimista, mas eu sou meio desconfiado com diretores que nunca ouvi falar. E tenho que dizer que me surpreendi bastante. O filme é bem clássico, no sentido anti-francês da palavra. Começo, meio, fim, bom desenvolvimento dos personagens.  As atuações eram ótimas, o roteiro era tranquilo, leve, comédia dramática. Huppert interpreta uma mulher meio hippie, meio louquinha, que nunca se estabelece em lugar algum, e com isso ganha o ressentimento da sua filha, que anseia por estabilidade. Ela então aceita um trabalho na Bélgica, só pra provar pra filha que pode assumir responsabilidade, e juntar um dinheiro pra ajudar no casamento da filha. Não é um filme imperdível, mas é divertido, gostoso de assistir.

Nota: 7.0

Amanhã tem mais, eu acho…


Crítica – Dente Canino (Kynodontas, 2009)

Julho 6, 2010

Vencedor do prêmio “Un certain regard” (Um certo olhar) no Festival de Cannes de 2009, o filme grego Dente Canino passou pelo Brasil através da Mostra de São Paulo. Como eu não pude me dar ao luxo de viajar e comparecer a Mostra, o filme passou batido pela minha pessoa até que eu me deparei com a lista “Os melhores filmes de 2010… até agora” do blog The Playlist (para ler a matéria na íntegra, clique aqui). Dessa mesma lista comecei a fuxicar datas de lançamentos, quais filmes iam chegar por aqui nos cinemas, quais tinham chances de Festival do Rio, e quais já estavam ao meu alcance no clique de um mouse. A resposta pra última opção era basicamente uma: Dente Canino. Resolvi assistir ao trailer no Youtube pra me decidir e logo pensei “Esse filme promete ser uma experiência de outro mundo!”. Eu estava certa.

O filme conta a história de um casal super-protetor que decide ocultar os filhos do mundo como conhecemos ao isolá-los numa casa de campo, onde ensinam a essas “crianças” (os três já tem quase seus 30 anos) que eles não devem sair do terreno da casa até que os dentes caninos cresçam e caiam outra vez. Uma coisa de louco! Não existe televisão, telefone, nem mesmo definições para palavras como zumbis ou cunt (essa eu fiquei sem graça de traduzir, mas quer dizer XXT, rs). O único contato com o mundo lá fora se faz através da personagem Christina, segurança da empresa do pai que é paga para ir de vez em quando na casa no meio do nada e satisfazer os desejos sexuais do filho do casal. Já disse que é coisa de louco? Você não faz noção, wicked leitor, o que quer que você consiga imaginar, é ainda mais doente. E por isso o filme funciona tão bem. Parte do filme você fica com o queixo no chão, rindo das situações que se criam num mundo tão nonsense, e outra você tenta tapar os olhos com a crueldade imposta sobre essas pessoas.

Não quero ilustrar com situações porque eu odeio quando a Isabela Boscov da VEJA faz isso. Sinto que tira parte do prazer/choque/surpresa que o espectador só experimenta por completo quando assisti o filme “no escuro”. Então tudo que posso fazer é deixar o trailer aqui para a avaliação de cada um e dar minhas sinceras recomendações pra que corram atrás e assistam o filme. Mesmo que não faça seu “gênero”, o filme ainda proporciona muito material para discussão e reflexão.

obs: Não recomendado pra menores de 18 anos. Sério isso… Se você é um menor perv que frequenta esse blog, considere-se avisado. Você pode não dormir… ou acordar as 5 da manhã ainda pensando em certas cenas do filme (foi o que aconteceu comigo, e olha que já estou nos meus 69…rs)

obs2: Pra quem for correr atrás do filme, vale saber que o nome dele internacional ficou como Dogtooth. Boa sorte! rs

Nota: 9,0.


Crítica – The Twilight Saga: Eclipse (2010)

Julho 2, 2010

(Crítica que nosso wicked twin preparou para o site Cineplaers – por isso ele foi tão bonzinho)

A saga dos críticos para assistir aos filmes da franquia Crepúsculo continua com um filme ligeiramente superior aos anteriores, o que é o mesmo que nada. Desta vez, o cargo de diretor coube a David Slade, cujos filmes mais famosos aqui no Brasil foram Menina má.com e 30 dias de noite. Ironicamente, Slade já declarou publicamente que não gosta da série, e que nunca se aproximaria dos filmes. Mas talvez esse “desapego” ao material original tenha sido bom, quanto menos diálogos de Stephenie Meyer no roteiro, melhor o filme fica.

É claro que ainda não é o suficiente pra tornar o filme bom. As atuações canhestras persistem, se tornando realmente difícil destacar alguém pelo estoicismo. Kristen Stewart já havia provado ter algum talento em filmes como O Silêncio de Melinda ou Na Natureza Selvagem, mas aqui parece ter esquecido tudo que aprendeu (pra ser justo, ela já tinha esquecido quando fez Jumper, muito antes de começar a lidar com vampiros). Sua personagem, Bella Swan, demostrava ser chata e sem personalidade antes, quando passou Lua Nova tentando se suicidar por não ter seu amor correspondido. Agora, que está com Edward ao seu lado, ela percebe que tem sentimentos por Jacob, e continua com o seu dom de colocar as pessoas em situações ridículas, como na cena em que o triângulo amoroso tem que dividir uma barraca.

Mas se Bella não é particularmente interessante, ela possui pretendentes a altura. Edward, que até então possuía o único defeito de ser um vampiro e não querer estragar a vida da amada, parece regredir séculos e ignorar a época em que vive. Chega ao ponto de proibir Bella de visitar Jacob, nem que pra isso tenha que quebrar seu carro. E em uma determinada cena, que é provavelmente o ponto mais baixo que a saga chegou até o momento (e isso é algo de peso), Edward prega os valores do sexo apenas após ao casamento. Risco de vida, violência, guerras são travadas em nome desse amor, mas sexo antes do casamento… inconcebível!

Taylor Lautner… temo dizer que é o ponto forte do triângulo. Em todos os sentidos. E pra quem duvida, ele fica sem camisa durante boa parte do filme pra comprovar. Não que sua atuação seja brilhante, mas ele possui o personagem menos enfadonho dos três, o que novamente não quer dizer muita coisa. Triste mesmo é constatar que Bryce Dallas Howard, que havia começado tão bem sua carreira com A Vila, e até mesmo Manderlay, agora se dedica a pequenas participações em Homem Aranha 3 e em filmes como este Eclipse. O mesmo pode se dizer de Dakota Fanning, que da menina-prodígio de Uma Lição de Amor pouco restou. Sua participação é tão pequena que ela deve ter perdido mais tempo na sessão de fotos do poster do que nos sets de filmagem.

E o que faz de Eclipse melhor do que o início da saga? Eles utilizam menos os efeitos toscos, o que é sempre uma vantagem. Tomei a liberdade ainda de ignorar a dificuldade que foi matar apenas um vampiro em cada um dos outros filmes, enquanto aqui vemos um exército do tipo “mais feroz que existe” com uma fragilidade de bonequinhos de papel brincando na água. Depois de três filmes, a lição que fica é que não se pode levar um filme desses a sério.

Nota – 3,0


Crítica literária – Os homens que não amavam as mulheres

Junho 1, 2010

Como prometido, aqui está a crítica pra minha última leitura: o primeiro livro da trilogia Millenium, Os homens que não amavam as mulheres, do falecido Stieg Larsson. Eu estava mesmo precisando de um bom mistério, de uma dessas tramas mirabolantes, que passadas algumas páginas, você não consegue descansar o livro imaginando qual vai ser o desenrolar da história e quem está por trás de todo o mistério. Esse livro é um ótimo exemplo dessa categoria de suspenses, e seus personagens são extremamente cativantes num livro muito bem escrito (embora a tradução tenha momentos pavorosos como: “(Ela) Ficou tiririca, mas foi embora“. TIRIRICA? Fuck that!).

Devo admitir que só fiquei realmente curiosa pra ler o livro depois de assistir ao trailer americano do filme sueco. Antes eu torcia o nariz pra “Trilogia Millennium” por dois motivos: já to de saco cheio de “trilogias” e as capas me lembravam uma coisa meio “vampiresca”, e taí um gênero que já tá über saturado (mas garanto que vou ler “Deixa ela entrar” assim que conseguir colocar minhas mãos em uma cópia). Mas vendo o trailer, e a matéria que saiu no AfterEllen, resolvi comprar e ter um momento “leitura divertida”. O pior é que eu tinha pensado em ler outra coisa agora no intervalo entre os livros, mas assisti o filme no final de semana e já me deu um pequeno spoiler pro segundo livro da saga, A menina que brincava com fogo. Óbvio que já comecei a ler e já já vai ser minha próxima crítica literária, rs.

Falando um pouco da estória, acompanhamos paralelamente Mikael Bromkvist, um jornalista acusado de difamar um grande empresário sueco, e Lisbeth Salander, uma menina problemática que ganha a vida utilizando seus talentos como hacker e trabalhando como investigadora profissional para a Milton Security. Os dois acabam cruzando o mesmo caminho quando começam a investigar o desaparecimento de Harriet Vanger. Mikael porque foi contratado pelo tio da menina como última esperança de desvendar o suposto assassinato da menina, e Lisbeth, porque foi contratada pelo advogado do tio para investigar o próprio Mikael. Na verdade existem alguns subplots no livro, mas todos vão se amarrando muito bem, e os que ficam “pendentes” já estão sendo abordados no segundo livro. Então sem medo, o material é de qualidade! rs

Noomi Rapace como Lisbeth Salander na adaptação para os cinemas.

Quanto ao filme, recomendo que assistam *depois* de ler o livro. E não porque o filme seja ruim, porque não é. Na verdade é o mais fiel possível e as escolhas do roteirista e do diretor são totalmente legítimas. Mudanças foram mais do que necessárias pra transformar um livro de mais de 500 páginas num filme coerente de 120 minutos. Mas não tem jeito, muito detalhe paralelo que faz parte do “charme” do livro acaba ficando de fora. E gostei muito da escolha da atriz que interpreta Lisbeth, Noomi Rapace. Ela realmente se entregou a personagem, fisico e emocionalmente (as tattoos são fake, mas ela realmente fez os piercings na cara! Sem contar o moicano do segundo filme…). O que me faz temer a refilmagem americana (alguma dúvida que ia rolar depois que os filmes foram sucesso absoluto na Suécia? Maior bilheteria, records e mais records, críticas positivas e bla bla bla) e a escolha do elenco. Já se falou em Kristen Stewart (please don’t), Ellen Page (maybe) e Carey Mulligan (desculpa, mas não consigo ver ela nesse papel. Mas posso ser surpreendida, who knows?).

Uma pena só que Stieg Larsson morreu, vítima de um ataque cardíaco, logo depois de entregar os manuscritos da trilogia a sua editora, ou seja, nunca viu o maior sucesso de sua carreira se concretizar. Isn’t ironic, don’t you think? rs

Recomendo muito! Tanto livro, quanto filme. E em breve comento o segundo episódio da série. Segue o teaser que me “iniciou” nesse mundo:


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