Broadway – Dia 03 e 04 – The Curious Incident of the Dog in the Night-Time

Janeiro 30, 2015

Tudo estava certo para na segunda feira assistir a “O Fantasma da Ópera”, o programa mais típico de turista que não sabe o que assistir na Broadway. Mas eu queria ver por dois motivos: 1- Era aniversário de 27 anos no Fantasma da Broadway, e achei que isso poderia ser interessante e 2- Eu queria ver o Norm Lewis como Fantasma. Acho ele fantástico, desde que o vi em Porgy and Bess, e depois no DVD do Les Mis de 25 anos. Estava eu com ingresso na mão e todo feliz quando a nevasca chegou. Cancelaram TODOS os três shows da Broadway que funcionariam na segunda (é o que eles chamam de Dark Day pra maioria das peças) e avisaram que talvez cancelassem também os de terça. Deram toque de recolher, e avisaram que qualquer carro na rua seria multado. Todos preparados pra pior nevasca da história de NY! Mas que acabou sendo apenas uma nevasca normal. No dia seguinte, tudo branquinho, frio e molhado, mas nada preocupante, e com isso perdi meu Fantasma, por enquanto.

Com isso, na terça fui assistir “The Curious Incident of the Dog in the Night-Time”, uma peça que eu conhecia de nome por ter o maior número de vitórias no Olivier Awards, do West End. Soube que teve uma montagem no Brasil, mas alguns amigos falaram que era vergonhoso de tão ruim, e acabei não assistindo. Então não posso julgar nem a britânica, nem a brasileira, só a americana que vi aqui. E tenho que dizer, é fenomenal.

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Consegui os ingressos, pra variar, via ticket rush. Bastou chegar lá e pedir, sem grandes concorrências. A nevasca fez com que o pessoal ficasse com medo das filas. Mas ainda fiz amizade, e me contaram que aparentemente essa peça é baseada num livro muito popular por aqui, mas que eu nunca tinha ouvido falar, de um autor chamado Mark Haddon. Conta a história de um menino com uma espécie de autismo, que certa noite encontra o cachorro da vizinha morto, assassinado com um garço de jardinagem, e decide investigar pra descobrir o assassino. Parece simples, mas é bem longe disso, e a investigação entre as pessoas da vizinhança e com o seu pai vai desvendando a trama, e conforme conhecemos os personagens, mais vamos entendendo as relações entre eles, sempre pelos ponto de vista de Christopher, o menino autista.

Embora o texto seja excelente, o que mais chama atenção é a própria montagem, que com um cenário interessantíssimo, iluminação, efeitos, projeções e tudo o que se é possível, se desdobra pra tentar passar pro expectador a sensação que deve ser pro jovem autista ter que passar pelos acontecimentos, como andar de metrô, andar numa cidade grande, falar com estranhos, fazer uma prova, assimilar sentimentos, e boy, do they get it right! Nunca ofuscando, sempre acompanhando o texto, do jeito que o bom teatro pede.

O elenco também foi sensacional. Alex Sharp interpreta Chistopher, em seu primeiro papel profissional (embora ele tenha estudado em Juliard, segundo a Playbill), e com que segurança ele segura um personagem tão difícil. Pode não parecer pelo que eu tô escrevendo, mas é uma peça enérgica, tem um desgaste físico bem grande, além de todo o processo complexo que é pra qualquer ator de entrar na cabeça de um jovem com autismo. E ele consegue brilhantemente, daquelas que a gente esquece o ator, esquece a peça, se envolve. Eu prestaria atenção nele, acho que ele tem boas chances no Tony desse ano. O Ian Barford, que faz o pai, também é muito bom, assim como a Francesca Faridany, que faz a professora.

Eu e o Alex Sharp. Leva logo o Tony!

Eu e o Alex Sharp. Leva logo o Tony!

É uma produção incrível, vale muito a pena pra quem estiver por aqui. Não é arroz com feijão, como o The Elephant Man, mas também não é super cabeça, é gostosa, é comovente. Daquelas que quando acaba dá vontade de abraçar o elenco e agradecer por aquelas últimas horas. Das melhores peças que já vi em NY.

Nota: 9,5


Broadway – Dia 02 – The Elephant Man

Janeiro 29, 2015

EM2Meu segundo dia na Broadway foi definitivamente um dos mais cansativos de todas as minhas viagens pra essa terra. Pra começar, como é minha primeira vez no inverno, o frio finalmente começou a pegar pesado. Se você estava numa bolha e não leu nenhuma notícia sobre NY nos últimos dias, uma tempestade histórica estava programada pra chegar por aqui na segunda, e nesse meu segundo dia, o domingo, já estava bem frio. Como sempre faço, acordei e fui correr atrás de Rush Tickets. Como aos domingos as bilheterias só abrem ao meio dia, achei que chegar 10h estava de bom tamanho. Meu plano inicial era tentar algo menos concorrido, “It`s only a play” ou “Disgraced”, mas ao passar em frente ao teatro do “The Elephant Man” e ver a fila relativamente pequena, umas 10 pessoas, achei que era uma boa tirar essa mega concorrida do caminho. Afinal, o ator principal é o Bradley Cooper, queridinho de Hollywood, que acabou de ser indicado pela terceira vez seguida ao Oscar.

Aqui vale explicar como funciona o Rush Ticket dessa peça especificamente. Quando a bilheteria abre, se os ingressos pras sessões do dia estiverem esgotadas, eles vendem 16 ingressos chamados Standing Room Tickets. Isso significa que você assiste em pé, atrás da platéia, e paga um preço mais barato. Nesse caso, 42 dólares. Tudo parecia tranquilo, foram duas horas na fila batendo papo com outros fãs de teatro, no frio congelante, mas tudo dentro do esperado. O problema foi quando abriu a bilheteria, e descobrimos que a peça não estava esgotada… Como pode? Ator de cinema, peça clássica, fim de semana em NY… o jeito foi fazer o que qualquer pessoa normal faria. Ficar em pé na fila até a peça esgotar. Ou seja, fiquei em pé de 10h até as 15h, hora que começou a matiné. E a peça não esgotou. Desespero na fila, gritaria e confusão. Ninguém entendia como a peça não estava esgotada, mas ainda tinham 11 ingressos, a 159 dólares para serem vendidos. O que fazer? O que qualquer pessoa normal faria, continuar em pé pra ver se a sessão das 19h esgotaria. Até que deu 16h30 e a mulher da bilheteria se apiedou da gente e decidiu vender os ingressos promocionais, mesmo com a peça sem estar esgotada. Ou seja, foram 6h30 em pé esperando pra pagar 42 dólares para ter o direito de ficar mais 2h em pé assistindo uma peça.

Valeu a pena? Sim, sempre vale a pena. O Homem Elefante é uma peça de 1977, escrita por Bernand Pomerance, que já foi encenada diversas vezes (uma vez até com o David Bowie), ganhou vários Tonys e Drama Desks, e que é mais conhecida do grande público pelo filme dirigido pelo David Lynch com o John Hurt, se não me engano. O filme não foi baseado na peça, mas ambos, filme e peça, se inspiraram na vida de Joseph Merrick, um homem com severas deformidades pelo corpo que viveu em Londres no final do século 19. Viveu sendo exibido em feiras, até ir morar no Hospital de Londres, se tornando querido da aristocracia inglesa. A versão atualmente na Broadway tem Bradley Cooper como o homem elefante, Alessandro Nivola como o médico responsável por estuda-lo, e Patricia Clarkson como Mrs. Kendall, uma atriz que tenta integrar Merrick de volta à sociedade.

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O maior problema da peça é ser extremamente convencional. Dos cenários, ao tom dos atores, iluminação, ao texto… tudo parece carecer muito de coragem de ousar, de sair do seu quadrado… Talvez seja reverência demais ao texto original. Uma pena, e de um diretor experiente. Só pra dar uma dimensão, Scott Ellis, o diretor, tem outras 3 peças só essa temporada (You can`t take it with you, The Real Thing e On The Twentieth Century). Vamos ver se nas outras que eu assistir ele se sai melhor. Também é conhecido (aparentemente por todo mundo, menos eu, como descobri na fila pros ingressos) que Bradley Cooper é apaixonado pelo texto, e fez sua tese no Actors Studio sobre ela.

Como comparação, a última peça que vi no Brasil foi exatamente uma montagem de O Homem Elefante que está em cartaz no Rio e que é incrível. O que eles fazem com apenas 4 pessoas e um teatro intimista e uma iluminação fenomenal, e atuações viscerais… é uma aula de teatro que o Bradley Cooper devia ter assistido. A atuação do Bradley é até muito boa, assim como a de Alessandro Nivola. Sempre inteligentes, fazem todas as nuances do texto de forma correta. Bradley faz seu melhor personagem, mas nem sempre um texto super estudado significa que o resultado é extraordinário. Patricia Clarkson, por exemplo, parece tão mais a vontade, mais fluída, mais brincando com o texto, sempre tomando cuidado pra não destoar, mas sem se engessar dentro da montagem restritiva.

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Ainda é uma ótima peça, mas definitivamente não é tão memorável quanto eles gostariam que fosse. Aliás, tô me esforçando pra escrever sobre, pois de domingo pra cá eu já vi 3 peças infinitamente melhores, que realmente parecem querer levar o teatro pra outros caminhos. A Broadway não é lugar comum, e as peças aqui não podem se conformar em simplesmente serem corretas.

Nota: 6,0


Broadway – Dia 01 – Hedwig and the Angry Inch

Janeiro 28, 2015

O que fazer quando ao chegar em NY em um sábado, você já perdeu todos os Rush Tickets possíveis, está quase de noite e você ainda não tem ingresso pra peça nenhuma? O jeito foi apelar pro TKTS da Times Square, coisa que eu odeio e evito ao máximo. A fila é sempre enorme, mas confesso que anda bem rápido. Também faço mea culpa porque me diverti muito quando um assistente da fila perguntou pras brasileiras atrás de mim o que elas queriam ver e elas responderam Mamma Mia e ele só mandou um “Damn Turists”. Confeço que ri. E peguei uma dica de “Nevermore”, um musical novo Off-Broadway que o pessoal da fila estava falando muito bem. Vou tentar encaixar.

Captura de Tela 2015-01-28 às 03.14.40Fila enfrentada, ficou a dúvida: O que assistir? Eliminando tudo o que eu já comprei, e tudo o que eu possivelmente conseguirei via Rush Tickets, tudo o que vale a pena comprar full price, e principalmente o fator de que gosto de começar e fechar bem, não podia escolher outra que não Hedwig. Talvez eu conseguisse por Rush, mas essa merecia um lugar melhor, uma visão perfeita… queria estar mais perto do palco, queria ver o John Cameron Mitchell de perto, queria sentir a vibração de assistir um dos atores/diretores/autores que mais admiro interpretar essa personagem tão incrível.

Pra quem não sabe, Hedwig estreou em uma boate em NY em 1994 e demorou alguns anos até estrear off-Broadway em 1998, ganhando vários prêmios. Em 2014, foi montada enfim na Broadway com Neil Patrick Harris como a protagonista (JCM afirmou que não queria fazer, que não queria o compromisso de ficar meses em cartaz, fazendo 8 shows por semana). Originalmente, o personagem protagonista seria Tommy, que é levemente inspirado no próprio JCM, um filho de militar, gay, que tinha uma babá/prostituta alemã, mas aos poucos Hedwig se tornou a personagem principal. JCM escreveu o book, com músicas de Stephen Frask. Na peça, acompanhamos Hedwig stalkear Tommy, seu ex-namorado, que roubou suas músicas e a abandonou. Já tentei algumas vezes escrever a sinopse de Hedwig mas nunca consigo. São tantos os temas que transbordam durante a peça… o não pertencimento, o deslocamento, a tentativa de Hedwig se tentar encontrar sua metade, de entender o que é a metade… a forma como ela dá uma parte de si tentando encontrar esse amor, essa aceitação, e como ela vai ficando amarga… Vivendo sobre o motto de que “to be free one must give up a little part of oneself”, ela acaba dando demais.

Fui, estava com medo, mas fui com medo mesmo. Medo de me decepcionar. São anos e anos de expectativa, um filme que marcou minha vida, uma das melhores atuações que eu vi no cinema, a melhor trilha sonora, e ano passado eu tinha assistido com o Neil Patrick Harris, o que por si só já é big high heels to fill. NPH tinha sido fenomenal. Ou seja, JCM tinha um pedestal pra escalar, embora eu soubesse que ruim dificilmente seria. Achei que não viveria pra ver o dia que assistiria JCM fazendo a peça.

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E o que dizer? Desde a entrada o público foi ao delírio. Percebi logo ali, de cara, que eu não era a única pessoa que sonhava em ver o JCM fazendo Hedwig na Broadway. Nem de perto. Era êxtase total. Chegou a um ponto onde o público levantava pra aplaudir no meio da peça. E merecido. Ao final da peça, não sei dizer quem estava mais satisfeito, mais destruído emocionalmente pela viagem que percorreu, JCM ou o público.

Sobre as diferenças da versão anterior pra essa, são tantas que é até difícil enumerar… as piadas com o público mudam muito, até pq é quase um stand up, muitas piadas com fatos atuais… Eu senti JCM mais a vontade, como é de se esperar. Menos “ensaiado”. Dava pra perceber que ele fugia muito mais do roteiro, brincava mais livre… Eu sentia NPH interpretava muito bem Hedwig, mas JCM é Hedwig, e isso é muito difícil de competir. Aliás, os momentos menos inspirados da versão de Mitchell é quando ele parece “obrigado” a seguir uma coreografia… NPH é Broadway, combina com ele. Os saltos, os movimentos coreografados de microfone… lindos, e certamente ele pula e cai todo dia no mesmo lugar. E não tem nada de errado com isso. Mas JCM é punk rock, ele não acerta as notas como costumava fazer, nem como o NPH fez, mas ele é puro coração, sentimento. A cada música você vê aquele personagem sendo despido (até literalmente) e é emocionante demais. Não tem como não sentir que é o próprio JCM se despindo, se doando, entregando uma parte de si pra platéia, vivendo aquela catarse. Pra quem estiver na Broadway pelas próximas semanas, vale muito a pena.

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PS: JCM é muito tímido, e no final ele não assina as Playbills, nem tira selfies, mas sai distribuindo balas autografadas, as mesas citadas na letra de “Sugar Daddy”.

Destaques

Nossa, escolha de Sofia… Amo tanto todas as músicas dessa trilha… Mas acho que a minha favorita, e principalmente, a que ficou mais foda nessa versão da Broadway atualmente, é The Origin of Love (mas o que segue é a versão do filme, com o JCM)


Crítica: De Pernas pro Ar 2

Janeiro 4, 2013
"De pernas pro ar 2", de Roberto Santucci

“De pernas pro ar 2”, de Roberto Santucci

Sinto dizer, mas “De pernas pro ar 2” é ruim. Isso não significa que você não vá gostar. Aliás, o cinema todo estava se mijando de rir, incluindo minha Wicked Family. Não é ruim-que-vergonha-alheia, mas parece feito das pressas, como se o roteiro nunca tivesse passado por um segundo tratamento, sem polimento, sem necessidade de fazer a história encaixar. A meu ver, tinham a seguinte ideia: Alice (Ingrid Guimarães) vai surtar (muitas piadas de humor físico. Hey, ela pode cair numa vagina!) e ir pra rehab, onde teremos mais piadas de humor físico. Depois ela podia aprontar muito em NY, onde teremos mais muitas piadas, agora no estrangeiro (lembra a cena de Uma Babá quase perfeita, com o Robin Willians ficando bêbado frequentando duas mesas diferentes e no final descobrem seu disfarce, e a vida dupla que ele levava? Quero algo assim!). E no final pode rolar uma dúvida se ela fica ou não com o marido, e a gente põe um beijo cinematográfico pra fechar. Juntaram todos esses post-its e deram pra um estagiário preencher os espaços entre as cenas, e pronto, assim nasceu o filme.

Não que o filme seja de todo ruim. Tem algumas decisões muito interessantes tomadas pra essa sequência. Por exemplo, diminuíram a participação da Maria Paula, que agora só estraga o terço final. Mas como No good deed goes unpunished, tascaram um Eriberto Leão (péeeeessimo, principalmente quando tem que falar inglês). Pra não ser totalmente injusto com o ator bonitinho desprovido de talento, o personagem dele é um perfeito 2 de paus. O roteiro precisa de alguém pra competir com a Alice na Rehab? Hey, temos o Eriberto. Precisamos de alguém pra servir de tradutor na reunião com os investidores, será que o Eriberto está livre? E a Marcela, coitada, tá sem namorado, Eriberto, topa mais uma semana de filmagem? Mas como vamos separar Alice do marido? Eriberto, cadê meu café? Não sei se foi minha falta de paciência do final do filme, onde ele muda de função basicamente a cada cena em que participa, sem se preocupar de evoluir a história junto, foi o que mais me incomodou. Em um momento vemos Marcela agarrar o cara, contra a vontade dele. Na próxima vez que ele aparece, ele diz que “terminou com a Marcela”. Mas em que momento eles namoraram? Pra piorar, Maria Paula, sempre ela, aparece e se diz apaixonada pelo Leãozinho como nunca esteve na vida, mas que ele lhe deu um pé na bunda. Isso tudo durante uma estada em NY, aparentemente eterna.

Pra piorar, o diretor não tem muito timing cômico, e somado a uma edição bem fraca, frouxa mesmo, faz com que nem a Ingrid Guimarães salve. Sem diretor, roteiro ou edição, não tem ator que salve, por mais bem intencionado que seja. Enquanto todas as comédias brasileiras com potencial de fazer grana forem dirigidas por Santucci e Alvarenga, vai ficar difícil pra eu rir no cinema. Por um 2013 com mais risadas de qualidade. Nota: 2,0

PS: Pra quê trazer a Tatá Werneck pro filme se não vão usa-la? Micro participação, e parece que deve ter sido mais divertida nos bastidores do que o que está na tela. Talvez tenhamos bons extras no DVD.


Drive e Positivamente Millie – O começo de 2013

Janeiro 2, 2013

Escolhi dois filmes muito interessantes e completamente diferentes para começar meu ano. O primeiro foi um dos maiores sucessos de crítica de 2012, “Drive”, filme que passei a virada devendo. Bad cinéfilo! O outro é um musical delicioso com a Julie Andrews, “Positivamente Millie”.

Drive (idem), de Nicolas Winding Refn – 2011

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“Drive”, de Nicolas Winding Refn

Confesso que não conheço muito bem esse diretor… Lembro de ler sobre “Valhalla Rising” e só. Mas ele realmente me surpreendeu bastante. Não é a toa que ele ganhou o prêmio de direção em Cannes. Cada frame desse filme parece meticulosamente bem escolhido. Personagens bem construídos, o Ryan Gosling continua sendo um dos melhores atores da atualidade, além de ser um tesão. Uma cena especificamente me marcou, pela forma como foi construída, e brilhantemente editada, dirigida, fotografada e atuada, quando um capanga entra no elevador com a Irene (Carey Mulligan, outra que teve um ano brilhante, fenomenal aqui e em Shame) e o Driver (Gosling, já disse que tá um tesão?). Acho que essa cena resume bem os personagens, a humanidade que Irene traz ao motorista, a violência que ele parece não querer usar, mas que parece ser inerente a sua vida. Também tenho que destacar a trilha desse filme, que é bem foda. E o elenco coadjuvante, só feras. Comecei bem o ano. Nota: 9,0

Positivamente Millie (Thoroughly Modern Millie), de George Roy Hill – 1967

Positivamente Millie

Assistir filme que ainda desconhecia da Julie Andrews é sempre um prazer. Acho que entre todas as divas de musicais, ela é a que tem uma das vozes mais “gostosas”. Acho doce, agradável, mesmo nos tons mais agudos. Acho que até a Wicked Rafa deve concordar com isso. Esse filme, engraçado, eu tinha ouvido falar mais pela peça. Eu sabia que a Sutton Foster, uma atriz que eu adoro, tinha feito uma versão e ganhado o Tonny por ela. Depois eu a assisti em Shrek e Anything Goes, e me apaixonei completamente, principalmente pelos números de sapateado. Mas achei que, como é a ordem natural das coisas, antes do filme de 67, já existisse a peça, e a Foster estivesse apenas em mais um Revival, como tanto acontece. Fiquei surpreso de descobrir que o filme é na verdade “original”, ou que não havia uma peça prévia na Broadway, e que as principais músicas foram compostas para o filme, e outras arrebanhadas da época em que a história se passa. Living and learning, né? O filme é uma graça, mas podia ter 1h a menos. Ele acaba se arrastando bastante, e bem desnecessariamente. E interessante ver o tema do tráfico de mulheres, tão “atual” na novela das 20h, ser retratado tanto tempo atrás. O filme é bobinho, mas tem umas atuações tão deliciosas… Julie Andrews deveria ter sido obrigada a fazer 1 filme por ano, nem que fosse coisa ruim. Assistir ela cantando me dá brilho nos olhos. Ela está ligeiramente careteira aqui, mas o filme pede. E perto da Carol Channing, ela está quase estóica. Difícil vai ser entrar em um elevador e não lembrar do número delicioso de sapateado de Andrews e Mary Tyler Moore. E não ficar imaginando que maravilha deve ter sido isso com Foster nos palcos. A “leveza” da história me lembrou um pouco os musicais mais antigos, coisas com músicas do Cole Porter, como o próprio “Anything Goes”. E também me diverti bastante vendo a dança da tapioca. ou começar uma campanha ela ser a dança do verão! Nota: 6,5


Velha Geração – Geoffrey Rush vs Anthony Hopkins

Fevereiro 12, 2011

Acabei de voltar do cinema, onde tive duas experiências bem diferentes, com atores igualmente talentosíssimos, mas que tomaram direções totalmente opostas em sua carreira. Como já está virando tradição, eu vou pro Plaza as sextas, assisto um filme bem ruim, que só me prepara pra assistir um filme muito bom em seguida. Nessa semana, fiquei com O Ritual e O Discurso do Rei.

Em primeiro lugar, O Ritual é ruim. De verdade. Personagens banais, esquematizados, que toda a hora que abrem a boca é só pra passar pro público alguma informação que o Demo vai usar contra eles na hora do exorcismo. Era pro chifrudo saber tudo da vida deles, detalhe por detalhe, mas acho que ele, assim como os espectadores, se contentou em saber apenas o “Thats what you missed in…. Rit”. Mas até aí, não posso reclamar de nada, o filme tá dentro das premissas dele. Mas eis que surge Sir Anthony Hopkins. Até eu tenho que concordar que coloca-lo incorporando um demônio não é uma idéia ruim. Eu olho pra ele e já morro de medo. É um dos maiores vilões de todos os tempos, certo? Mas não. O filme é tão ruim, mas tão ruim, que quanto Tony incorpora, eles enchem a cara dele de CGI. Isso mesmo, minha gente, a anta que fez esse filme julgou que a atuação não era assustador o suficiente. E no meio do martírio que foi assistir esse filme, pensei em qual foi a última vez que eu vi Mr Hopkins num filme bom… Ele tava uma bosta em Lobisomem. Ele foi o pai do Alexandre, naquela bomba. Fez uma animação ruim, Beowolf. Teve o último filme ruim do Woody Allen, um filme médio com a Gwyneth Paltrow, interpretou um negro no filme que a Nicole Kidman faz uma empregadinha. Chego a triste conclusão de a última vez que ele prestou foi fazendo Hannibal Lecter.

Meu primeiro instinto me levou a sentir pena. Ele deve ter contas pra pagar, né? Com uns 73 anos, os remédios devem estar caros, o sistema de saúde nos EUA são horríveis, ele deve estar vendendo a alma, quase que literalmente. O próximo dele vai ser Thor, pra você ter uma idéia. Mas eis que troco de cinema e me deparo com Geoffrey Rush. Ok, ok, ele só tem 60 anos, mas ainda assim. Geoffrey é relevante.

Assim como Tony, Geoffrey também ganhou um Oscar na década de 90, por Shine. E desde então, o que ele fez? De imediato lembro da dobradinha Shakespeare Apaixonado e Elizabeth. Não são filmes perfeitos, mas ele certamente está muito bem em ambos. E não podemos esquecer do inesquecível Marquês de Sade. E ele também vendeu a alma pro Piratas do Caribe, mas isso só o tornou ainda mais relevante e versátil. Fez o independente australiano Candy, teve Frida, Munique, a voz em Procurando Nemo, ganhou todos os prêmios de TV com o filme sobre o Peter Sellers. E agora está em O Discurso do Rei.

Aqui abro um parenteses. Geoffrey está MARAVILHOSO no filme. Só não rouba a cena do Colin Firth porque não tem como, são interpretações complementares. Se tivesse o Oscar de melhor dupla, certamente era deles. Mr Rush tem uma das melhores perfomances do ano, num dos filmes mais significativos também.

O que nos traz a uma questão: Por que Anthony Hopkins não consegue fazer um filme bom? Por que ele não consegue ter a relevância que o Rush tem até hoje em dia?

 


Críticas Literárias – Janeiro de 2011

Fevereiro 7, 2011

Bem, na falta de críticas diárias, vamos tentar ao menos resumos mensais, né? Acho que já é um bom começo! E como livros acabam não sendo tão numerosos quanto filmes no cinema, por exemplo, acho que não vai ser tão difícil.

1- Get Happy – The Life of Judy Garland – Gerald Clarke

Em primeiro lugar, tenho que explicar que não é a minha primeira biografia da Judy. Ela fazia parte de um estudo que visava gerar uma peça sobre a vida de uma das minhas atrizes favoritas. A anos invisto nisso, comprando e baixando filmes, e lendo tudo o que conseguia a respeito. Infelizmente, o Charles Muller e o Claudio Botelho passaram a minha frente e já tem planos de montar esse ano uma peça com o mesmo tema. Quase fico triste, mas eu quero mais, e pelo menos eles tem talento. Quanto ao livro, que é o que interessa, não foi minha biografia favorita dela não… Tinha boas expectativas, é a única entre as biografias a contar com cartas da própria Judy, e supostamente um filme protagonizado pela Anne Hathaway estaria sendo produzido tendo este Get Happy como base. Mas acho que ele acaba passando muito rápido por temas relevantes, que já haviam sido descritos com mais precisão nos outros livros. Filmes inteiros passam mal sendo citados, e essa era exatamente a parte que mais me interessava. O estilo do autor também é um pouco irritante, interessado demais em filosofar sobre a arte, o dom. E páginas e mais páginas de rasgação de seda cansam até pra quem concorda.

Nota: 6.0

2- Férias – Marian Keyes

Aqui vale uma explicação: Eu tinha começado a ler “Leite Derramado”, do Chico Buarque, mas viajei e esqueci o livro em casa. Resultado, parei numa Lojas Americanas e comprei a única coisa que dava levando em conta o buraco da minha conta bancária, as opções, e o fato de que eu estava a caminho de um cruzeiro. Eu sei, eu sei, oportunidade perfeita pra começar a ler Proust, mas dessa vez fiquei com uma leitura leve e divertida de Chick Lit. Então eu chego em um cruzeiro com bebida liberada e o bolso cheio de engov, deito na espreguiçadeira, ao lado da piscina, um drink na mão, um sorriso no rosto, e já na primeira página, nossa heroína está sendo hospitalizada com overdose/suicídio, e está sendo internada num centro de rehab! Ou seja, misturo bebida liberada com praticamente a biografia da Lindsay Lohan. Além disso, o livro não é bem escrito. Divertido ocasionalmente, mas a protagonista é extremamente irritante. Talvez esteja na hora de abandorar chick lits. Ou pelo menos preciso de personagens melhores.

Nota: 4.0

Pra quem está desesperado com meu nível cultural decadente, pra Fevereiro já terminei Chico e já engatei num Saramago. Bem melhor!


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