Top 5 – Filmes que você não viu, mas deveria ter visto (versão LGBT Nacional)

Aproveitando que hoje vai passar um curta que eu roteirizei no Cineclube LGBT, resolvi adaptar o Top de quarta, no qual infelizmente não postei, para essa versão LGBT nacional. Esse é um Top que eu e a Wicked Sis faríamos bem parecidos, eu acho. Pelo menos 3 dos meus tenho certeza que estariam no dela. Pra quem não sabe, nós fizemos uma pesquisa que gerou o filme “Cinema em 7 Cores”, um documentário de 35 minutos que mostra como o cinema brasileiro retratou a homossexualidade. Esse meu top então é o que acho de melhor que a maioria desconhece. Ou conhece, mas não assistiu. Ou só assistiu um remake horrível feito na década de 90. Mas espero no final mostrar que o Cinema Gay Brasileiro foi mais do que Cazuza, Madame Satã e a Paloma Duarte no “A Partilha”. Vamos lá!

5. Amor Maldito (1984)

amrmaldito

Esse filme tem a Monique Lanfond, uma atriz que ficou um pouco marcada por ter interpretado algumas lésbicas no cinema (As Feras, Giselle) e que nós entrevistamos pro Cinema em 7 Cores. Conta a história de uma jovem executiva que é acusada de assassinato de sua ex-amante. No começo do filme, ela se suicida, numa cena ligeiramente tosca, e a personagem passa o filme todo no banco dos réus tentando provar que não a matou, seguido de muitos flashbacks e demonstrações de moralismo e preconceito. Uma das coisas mais bacanas do filme foi mostrar um casamento lésbico, coisa que hoje em dia tá super na moda, mas que na época tava longe de ser a luta principal da causa. O filme tem muitos defeitos, o orçamento é claramente limitado, mas tem algumas coisas bem interessantes. Foi dirigido por uma mulher (Adélia Sampaio), coisa que hoje ainda hoje é difícil, e na década de 80, das pornochanchadas, era mais raro ainda. O continuista foi o Antônio Moreno, que hoje em dia é professor da UFF e escreveu o livro “O Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro”, embora ele não tenha muitas recordações sobre o fato. rsrs. E é bacana ver um filme de tribunal brasileiro, que é lésbico e da década de 80.

4. Os Imorais (1979)

osimorais7

Pra mim, esse filme é verdadeiramente uma pérola. Primeiro, porque ninguém viu. Segundo, porque ele engana muito. Eu fui cheio de preconceitos com ele. Afinal, um filme sobre um cabeleireiro que se apaixona pelo filho de uma cliente tinha tudo pra ser o pior dos clichés. E eu fiquei o tempo todo falando: “Que obvio, aposto que vai acontecer x”, e acontecia exatamente o oposto. O personagem principal, o gay cabelereiro solitário, que não tem amigos, é muito mais que o estereótipo. É alguém que não se encaixa no mundo, que tenta, que se apaixona, é ingênuo, é frágil, é sensível. Os questionamentos dele as vezes parecem obvios, mas são muito pertinentes. São perguntas que ninguém ousava dizer em voz alta, muito menos num filme, e que quando alguém as expressa em voz alta, parecem tão simples… A trama foi bem trabalhada, e apesar dos vícios dos filmes da época, gosto muito da trama, do desenvolvimento dos personagens. Eu recomendo.

3. Vera (1987)

vera

Vera na verdade teve mais reconhecimento internacional. Pouca gente sabe que a Ana Beatriz Nogueira ganhou o urso de prata em Berlim por esse filme muito antes da Fernanda Montenegro e Central do Brasil, ou Hillary Swank ganhar o Oscar com Meninos não choram. A história é sobre Vera, uma jovem num centro educacional que não se sente confortável com o próprio corpo. Ela se apaixona por uma outra mulher, mas ela não se entende como lésbica. Ele sente que é um homem num corpo de mulher, e se veste como tal. Muita gente acha que é um filme lésbico, mas na verdade é transexual. A Ana Beatriz realmente tá muito boa, o Raul Cortez também é fantástico, o filme é bem escrito, e trata de mais um assunto recorrente no universo GLS, que é a homossexualidade no confinamento, em prisões e afins, e por isso tudo vale muito a pena. Tem uns diálogos inspiradíssimos sobre a não aceitação, sobre não se identificar no mundo. Coisa muito fina. E é inspirado em fatos reais. O Raul Cortez interpreta o Suplicy (sim, o mesmo que deu cartão vermelho pro Sarney dia desses). Viu? Wicked Twin também é política.

2. Navalha na Carne (1969)

navalha-na-carne-197002

Esse filme foi uma ótima surpresa. Segundo a nossa pesquisa era pra ser estereotipado, e uma representação negativa. Por isso foi tão estranho ver o filme e perceber que é FODA. Um dos melhores filmes brasileiros que eu já vi. E pensar que isso foi feito em 69, (sem trocadilhos numéricos), sendo que o AI5 entrou em 68, plena ditadura militar… eu confesso que não faço ideia de como esse filme foi feito. O elenco é perfeito, com Emiliano Queiroz como o Veludo, Jece Valadão como Vado e Glauce Rocha como NORMA SUELY. Ok, quem viu o filme sabe que esse nome virou quase um bordão. É ótimo. E mostra uma coisa muito bacana do cinema, que as vezes você não precisa de muito pra conseguir fazer um filme digno de ser clássico. Basta um ótimo roteiro, personagens muito bem construídos e atores sensacionais. Fácil, né? O filme mostra a interação da “puta, do cafetão e do viado”, três personagens típicos do submundo, mais um tema típico do universo GLS no cinema. É mais um de tantos filmes baseados em peça, o que me faz pensar que os dramaturgos e escritores de livro (nesse caso Plínio Marcos, mas adicione a ele Nelson Rodrigues, Caio Fernando Abreu, Lúcio Cardoso). E gosto muito quando a Andrea Ormond diz que o Vando tem que lidar com o masculino de uma forma diferente. É bem bacana, e acho que nem o cinema mundial conseguiu algo tão contundente na abordagem homossexual quando esse filme eo próximo do top…

1. Matou a Família e foi ao Cinema (1969)

matou-a-familia-e-foi-ao-cinema

Esse é talvez o meu filme nacional favorito. Tem sua dose de experimentalidade na medida certa, é envolvente, absurdamente bem dirigido, tem a nossa “Bridgite Bardot inteligente” Renata Sorrah (vulgo Nazaré Tedesco) em começo de carreira, e linda, uma trilha perfeitamente encaixada… lembro de assistir e pensar que muitas pérolas ainda devem estar escondidas na cinematografia brasileira. Muita pena a gente ter pouco contato com o nosso passado, e que as cópias estejam tão mal conservadas. Novamente, é um filme de 1969, e todos os comentários sobre ineditismo, coragem, e ditadura são pertinentes aqui. Ambos os filmes também ganharam refilmagens  na década de 90, ambas pelo Neville de Almeida, e são sofríveis. Pra você ter uma noção, coloca no youtube “Claudia Raia”, “cavalo” e “espartilho” e assista um trecho da refilmagem. Muito triste. Também quero ressaltar a montagem desse filme, que é bem complicada. É difícil costurar essa história, mas o resultado final é maravilhoso. Esse é imperdível.

8 respostas a Top 5 – Filmes que você não viu, mas deveria ter visto (versão LGBT Nacional)

  1. Adorei, mas estava torcendo pra vc colocar o outro Matou a Família e Foi ao Cinema em primeiro lugar….rs

    Ia provocar várias pessoas a procurarem e assistirem o filme e terem the best time of their lives…EVER! hahahahaha. Acho que nunca vi um filme tão comédia em toda minha vida, nem ri tanto.. ;P

    Mas o orinal é realmente incrível, e acho que é meu filme nacional preferido também!!!!!

  2. Poliana diz:

    Acabei de descobrir o blog, e simplesmente a-do-rei!
    Vera definitivamente está entre os meus ’50 mais’ .
    As escolhas que vcs fazem são incriveis😀

  3. ftostes diz:

    Que bom que você gostou, Poliana! Volte sempre! Eu também adoro Vera, espero que um dia saia em DVD. Acho que nenhum desses saiu… uma pena.

  4. Zuzu diz:

    “Aproveitando que hoje vai passar um curta que eu roteirizei no Cineclube LGBT…”

    Nao ia perder a oportunidade. n’e? rsrs

    Adorei o TOP5! S’o vi os dois primeiros, mas to louca pra ver Vera. Fica a dica, roomate😉

  5. […] de Júlio Bressane, Matou a família e foi ao cinema. O filme já apareceu num post do blog (clique aqui para ler) então não vou me prolongar. Certamente vale conferir ou no Canal Brasil, ou no CCBB. Só cuidado […]

  6. pablo diz:

    Navalha na Carne é simplesmente lindo. os personagens e os diálogos me destruíram… infelizmente só pude ver uma vez, numa pequena mostra de filmes censurados. vc tem uma cópia, ou sabe como conseguir? um pecado um filme tão bom ser tão raro! (:

    abs,

  7. frotinha diz:

    em contrapartida a refilmagem do navalha tu encontra se reproduzindo tds os dias por aí….ridiculo! sabe, é uma refilmagem como essa q faz tu desistir de ver o original. só vou ve-lo agora por causa das criticas daqui^^

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: