Semana do Cinema Nacional – Sonhos Roubados

Sandra Werneck quase fez três bons filmes. Pequeno Dicionário Amoroso é divertido, mas pouco coeso. Amores Possíveis tem boa premissa, mas não engrena. Cazuza – O Tempo Não Pára só não é pior porque tem um personagem que não cabe em um filme ruim. Ainda assim, em comum, todos são sucessos de bilheteria, chegando ao auge com os 3 milhões de espectadores de Cazuza. Não chega a ser um Daniel Filho de saias, mas é louvável ver que o cinema brasileiro consegue abrir espaço pra diretoras, coisa difícil em diversas cinematografias. Esse ano já tivemos o ótimo As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, e teremos ainda Desenrola, de Rosane Svartman, O Sol do Meio Dia, de Eliane Caffé, entre outros.

Apesar dos sucessos, Sonhos Roubados dialoga muito mais com Meninas, pequeno documentário que Werneck filmou em 2006 sobre a gravidez nas comunidades carentes do Rio de Janeiro, ou até mesmo com Antônia – O Filme, de Tata Amaral.

A protagonista, Jessica (interpretada por Nanda Costa), é mãe solteira e divide seu tempo entre criar a filha, frequentar a escola sem perspectiva nenhuma de se formar e a prostituição, mesmo que negada. Suas duas amigas, Sabrina (a fraca Kika Farias) e Daiane (Amanda Diniz, ex-Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo) também se confrontam com o fato de terem que lidar com a sexualidade em fase bem precoce, e como isso afeta suas relações sociais dentro de um mundo onde não parecem ter opções.

Jessica é uma personagem bem interessante. Não acredita que o que faz é prostituição, pois seria admitir que está trilhando o mesmo caminho da mãe. É uma espécie de complemento salarial, que permite as futilidades típicas da sua idade. Está constantemente dividida entre querer aproveitar a juventude e fazer o que é melhor pra filha Britney. E, apesar de parecer egoísta, seu maior sonho é que avô (Nelson Xavier, em cartaz em Chico Xavier) melhore da doença que o aflige. São boas também suas cenas com Zezeh Barbosa, a “sogra” que acredita que o estilo de vida de Jessica não é bom para a sua neta. O grande mérito de Sandra é conseguir um distanciamento para não julgar as atitudes da personagem, ao mesmo tempo que nos envolvemos com seus dramas.

Outro núcleo interessante é o de Daiane, menina de 14 anos, “mais ou menos virgem”, como ela mesma se define, que sofre abusos do tio. Procura o pai que só lhe renega, e acaba conhecendo a cabeleireira Dolores (Marieta Severo), que vai lhe proporcionar a estabilidade que precisa para amadurecer, além de uma alternativa para a vida que suas amigas trilham.

O bom elenco de apoio acaba compensando a falta de experiência das protagonistas. Marieta Severo, que já havia trabalhado com Sandra Werneck em Cazuza, rouba todas as cenas em que aparece, e ajuda a extrair o melhor de Amanda Diniz. Sua Dolores representa a força e compaixão que não encontra nas figuras paternas. Daniel Dantas também faz um bom trabalho como o tio pedófilo, e o mesmo pode ser dito de Ângelo Antônio, que compõe muito bem o seu personagem, apesar das poucas cenas. Ambas as figuras masculinas na vida de Daiane só reforçam a força feminina dentro do universo do filme.

O ponto mais fraco é sem dúvida a história de Sabrina. Kika Farias não possui o carisma de Nanda Costa e nem um elenco de apoio que sustente o interesse em sua história, que demora a engrenar, e se apaga rapidamente. A jovem, que gosta de poesias e parece ser a única a acreditar na educação como alternativa de vida, se apaixona por um bandido, que paga suas contas mas não satisfaz sua carência.

No geral, o filme tem mais acertos do que erros. Embora as histórias sejam genéricas, e possuam milhares semelhantes por aí (o próprio Meninas é a prova disso), Sandra Werneck foi bem eficiente ao humanizá-las, e fazer com que nos importemos com os seus destinos. E embora sejam previsíveis, continua o sonho de que as coisas melhorem. Na cabeça das personagens e do espectador.

3 respostas a Semana do Cinema Nacional – Sonhos Roubados

  1. Acho que só vou ver esse filme no cinema se realmente der tempo. Antes disso quero assistir o “Melhores coisas…”. Até porque como vc mesmo falou, a diretora acaba sempre (generalizando, claro) com um filme “mediano” em mãos. Dá preguiça de me deslocar a um cinema, e pagar R$10,00 pra ver um filme “nhé”. Mas who knows? Eu gostei do Meninas. Pra mim foi o melhor dela. Mas com documentário é mais difícil de errar na mão, eu acho.

    Adorei a crítica. Agora cadê a do “Melhores coisas”?

  2. Eu diria pra fazer uma crítica pro Chico Xavier também, mas tenho medo! kkkkkkkkk

  3. Julie diz:

    Será que eu consigo arrumar um ingresso? Fiquei curiosa mas não a ponto de marcar um cinema pra ver…

    Fil, I miss you!

    beijos

    Julie

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