Crítica – Quincas Berro D’Água

Crítica que escrevi pro Cineplayers:

Jorge Amado volta aos cinemas com a adaptação de Sérgio Machado para “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”. E com certa expectativa, já que o maior sucesso de todos os tempos do cinema nacional também veio do escritor baiano, Dona Flor e seus Dois Maridos. No imaginário do público, ainda vivem personagens emblemáticos, como Tieta do Agreste e Gabriela, Cravo e Canela. E, apesar de mudanças significativas em relação ao livro, a essência e a brasilidade de Jorge Amado estão intactos, graças à enorme competência de todos os envolvidos na produção.

O filme anterior de Sérgio Machado, Cidade Baixa, é um drama intimista sobre a relação delicada que se desenvolve entre dois amigos ao se apaixonarem por uma stripper. Era de se estranhar uma mudança para a comédia rasgada, com grande elenco, movimentações em cena e efeitos especiais. Mas Quincas Berro D’Água é muito mais do que isso. Analisando a construção dos personagens, percebe-se que a amizade continua sendo o foco central do trabalho do cineasta, que constrói com o espectador uma relação de afetividade com os personagens muito maior do que a simplicidade do argumento sobre um homem morto poderia sugerir.

Vale ressaltar aqui o enorme talento de Paulo José, que mesmo passando boa parte da projeção de olhos fechados, o que é um grande desafio pra qualquer ator, consegue passar uma empatia e personalidade cativante para o seu Quincas. Colocar sua voz em off para narrar a história foi uma decisão muito acertada do roteiro, pois passa a impressão que o personagem está presente o tempo inteiro, assistindo como nós ao seu próprio velório, ao seu último dia na Terra. Entendemos suas motivações, e não choramos sua morte, mas sorrimos pela sua vida, como ele gostaria de ser lembrado.

Quincas Berro D’Água é um boêmio, fiel aos seus amigos e ao seu princípio único, de que a vida é pra ser vivida. Abandonou a família e emprego estável, uma vida completamente enfadonha, pra viver na esbórnia, beber todos os dias e viver um grande amor com uma dona de prostíbulo. Quis o destino que a morte lhe pregasse uma última peça, e Quincas morre no dia do seu aniversário, quando todos os seus amigos lhe esperam pra uma festa surpresa.

A ação se divide durante boa parte do filme entre os amigos boêmios que levam o corpo de Quincas para uma última farra de aniversário, e a família que ele abandonou anos atrás, que quer reaver o corpo.

Pra um elenco de tal porte, de tantos nomes, é impressionante como Sérgio Machado (e a preparadora de elenco Fátima Toledo) conseguem tamanha qualidade e coesão das atuações. Mariana Ximenes, que interpreta a filha de Quincas, personagem que ganha muito mais destaque na versão cinematográfica do que no livro, tem sua melhor atuação até hoje, lembrando mais o seu início de carreira (Os Invasores, A Máquina) do que filmes mais recentes, como A mulher do meu amigo. Ainda assim, o destaque fica por conta do grupo inseparável composto por Flavio Bauraqui, Luis Miranda, Irandhir Santos e Frank Menezes. Todos tem um tom muito próprio na composição dos seus personagens, funcionando perfeitamente bem em grupo. Neles reside o coração do filme, a comédia mais pura. E a dedicação com que eles tem com o Quincas, com sua última farra, é o perfeito equilíbrio entre emoção e diversão.

Quincas Berro D’Água tem tudo para se firmar na galeria das boas adaptações cinematográficas da nossa literatura. Agora é torcer para Capitães de Areia, dirigido por Cecília Amado, neta do autor, que estréia em setembro, siga o mesmo caminho.

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