Musical Monday – Gypsy

Every now and then esse blog consegue fazer um texto sobre teatro. Gostaria que pudessem ser mais frequentes, mas o preço do teatro tá pela hora da morte, principalmente se você é um musical freak e quer ver grandes produções como eu. A boa notícia é que Gypsy, nova peça da dupla Möeller e Botelho, tem preços levemente mais baratos durante a semana, e consegui, com a ajuda de uns amigos, sentar em um lugar ótimo, em boa compania, e assistir a história de Mama Rose e suas filhas.

Antes de vocês digam qualquer coisa a respeito da peça, deixa eu dar o pedrigree. A peça, que é baseada na biografia de Gypsy Rosie Lee, uma stripper famosa da década de 30, se foca na sua relação com sua mãe, Mamma Rose. As músicas foram compostas por ninguém menos que Jule Styne (que compôs Dont Rain on My Parade, entre milhares de outras), as letras são de Stephen Sondheim (ganhador de 8 Tonnys, um recorde, e compôs, entre outros Sweeney Todd). Jerome Robbins, diretor da versão cinematográfica e teatral de West Side Story, cuidou das maravilhosas coreografias. O papel principal, de Mamma Rose, já deu um Tony de melhor atriz pra Angela Lansbury, Tyne Daly e Patti LuPone. Ethel Merman e Bernadette Petters (essa dirigida por Sam Mendes, de Beleza Americana) foram apenas indicadas. No mesmo papel, Rosalind Russel ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz Musical pela versão cinematográfica, e Bette Middler ganhou outro pela versão para a TV. Ou seja, quer ganhar um prêmio, interprete Mamma Rose. Alguém devia dar a dica pra Meryl Streep, quem sabe assim ela para de perder.

E é com essas credenciais que chegamos a versão brasileira… E ela é boa. Com certeza ela diverte, e é um ótimo musical, as músicas foram muito bem adaptadas, e isso sempre se destaca. O problema maior está no fato de que essa era pra ser uma das melhores peças da Broadway de todos os tempos. E essa certamente não é a impressão que fica no final da apresentação. Você sai satisfeito, valeu o preço do ingresso, mas não saí querendo ver over and over again. Ou seja, é bom, mas não tem o Wow factor.

Tenho que destacar a produção, como sempre caprichadíssima. Acho que até um leigo consegue identificar quando uma peça é do Möeller/Botelho e quando é do Falabela, simplesmente pelo acabamento, e pelo primor em todos os aspectos técnicos. Os figurinos são ótimos, com destaque pras dançarinas decadentes burlescas, e eu particularmente acho a Adriana Garambone (40 anos, com corpinho de 45) mais bem caracterizada como uma menina de 12 anos do que como uma gostosa stripper de 20 e poucos.

E talvez aí esteja o principal problema da peça, em algumas atuações chave. Totia Meirelles, que tinha 50 anos de boas performances pra ser comparada, é uma boa atriz, carismática até o último fio de cabelo, e isso é essencial pra se fazer uma boa Mamma Rose. A personagem é complexa, muitos a descrevem como um monstro pela forma como lidou com suas filhas no decorrer dos anos, em como passou por cima de muita gente tentando seguir um sonho, em como ignorava Gypsy para destacar sua outra filha, Baby June. Mas above it all, Mamma Rose é cativante, e queremos que as coisas dêem certo pra ela, torcemos pelos seus esquemas, e odiamos suas atitudes, mas somos atraídos por sua personalidade. E nesse quesito, Totia é muito boa, e consegue achar um bom tom. Mas Mamma Rose é mais que isso, ela é mais do que Totia tem a oferecer, principalmente musicalmente. E por isso a peça fica eficiente, mas não insuperável, inesquecível.

Adriana Garambone é outro weak link. Ela não convence como a stripper, e não tem mais idade pro papel at all. Era pra ser mais gostosa (é a vida de umas das strippers mais famosas do mundo, que teve um filho com o diretor de cinema Otto Preminger, e possuía a admiração de intelectuais como Chagall, Miró e Picasso), e me desculpa, Garambone, você não é. E quando deixa de ser patinho feio, me deu vontade de dizer “Jesus, oh lord, go back to wearing clothes”.

Mas eu completamente recomendo “Gypsy”. Mesmo com um ou outro lapso, e se a Totia não é a maior cantora/atriz do teatro brasileiro, a peça é tão boa que flutua acima disso. É uma experiência encantadora, divertida, dramática, e sabe mesclar isso tudo muito bem.

Segue um vídeo da Totia Meirelles com o Eduardo Galvão, mostrando como eles fizeram. E em seguida, uma performance da Patti LuPone, na entrega dos prêmio Tonny, que ela ganhou, mostrando como deveria ser feito. As músicas são diferentes, porque believe me, não foi fácil achar esse material com qualidade. So, enjoy!

5 respostas a Musical Monday – Gypsy

  1. Julie diz:

    Aaaaaah! Para de ser crítico! Hahahahaha!

    Eu curti mas antes de ver Gypsy eu não sabia nada sobre Gypsy! Mas enfim, super concordo com vc em relação a atuação da Garambone…

    Mas que foi tudo termos visto a peça juntos foi!🙂

    beijosssss

  2. ftostes diz:

    Mas eu gostei da peça, bastante! Só falei que não foi uma das melhores peças que já vi na vida, coisa que pelo que dizem, Gypsy deveria ser…

  3. Ué, cadê o vídeo da versão brasileira? Fiquei curiosa pra fazer as comparações, rs. E é sempre difícil comparar produções nacionais a internacionais. Aqui a gente não tem impulso nos projetos teatrais e não temos muitos atores multifacetados. Os que atuam mto bem, não cantam bem. Os que cantam não atuam ou dançam, ou sei lá. E na Broadway o que não faltam são os deuses do palco musical, que sabem fazer as três coisas muito bem.

    Por isso meu medo com a anunciada adaptação de Hedwig.

    obs: o *meu* nick babyjune não veio de Gypsy. hehehe

  4. Zuzu diz:

    Adaptação de Hedwig?

    Oi?

  5. Obrigado pela “boa companhia”, hahahahaha Eu sou fã freak de musical e até bem crítico, mas acho q perdi esse posto pra vc e um outro amigo meu. Eu adorei Gypsy, e devo concordar com seus comments sobre Adriana Garambone, muito embora eu tenha gostado da sua atuação, inclusive nas cenas de strip. Mas, devo confessar, q a única coisa q me incomoda no Gypsy brasileiro é a peruca das June, pq, segundo a história, Mamma Rose descoloria o cabelo de June Havoc desde os 4 anos, e, na peça, a peruca parece peruca, e parece q Renata Ricci está eternamente fantasiada pras produções bregas da mãe.

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