Porque gays e lésbicas tem dificuldade de se controlar quando se vêem retratados no cinema?

Eu era pra ter escrito esse post logo após o Festival do Rio mas a vida de xibata anda ocupando meu planejamento bloguesco, se é que você, querido wicked leitor, me entende. Mas hoje finalmente resolvi arrumar um tempinho pra escrever de um assunto um tanto quanto polêmico. Vê-se pelo tamanho do título do post, não é mesmo? E pra quem leu e não entendeu nada, vou explicar direitinho aqui minha mais nova tese.

Tudo começou quando fui assistir o novo filme do diretor Julio Medem, Um quarto em Roma (Habitacion en Roma, que teve o trailer postado aqui), durante o Festival do Rio, no Vivo Gávea. Trata-se de um cinema de shopping, com público A, no estilo playboyzinho-cult-bacaninha. Pelo menos é a imagem que as pessoas de fora tem da Gávea e de seus moradores. Anyway, eu já não me impressiono com o fato de que as pessoas escolhem seus filmes aleatoriamente no Festival, mas me deixou extremamente irritada que um casal de uns 50 anos, sentado ao meu lado, não calasse a porra da boca porque entraram no filme “errado”! Pra quem não sabe o filme se passa durante uma noite de sexo casual entre duas mulheres, uma espanhola (a excelente Elena Anaya) e uma russa (a belíssima Natasha Yarovenko, que deixa a desejar. Por mais que o filme seja todo em tom teatral, ela não segura em cenas importantes). Me impressionou que o filme incomodou principalmente o marido, que ao sentir sua masculinidade ameaçada, não parava quieto na cadeira e reclamava o tempo inteiro do filme. Um desconforto óbvio as cenas de nudez e sexo entre duas mulheres lindas. O que é muito estranho… O normal do homem heterossexual seria ficar quietinho, apreciando as cenas, até sua mulher, em meio a grande revolta, pedir pra se retirar do cinema. Mas nope, foi ele quem aos 40 minutos deu um basta.

Sexo e nudez com naturalidade em "Um Quarto em Roma"

 

Ufa! Finalmente eu ia poder assistir o filme sem ficar me sentindo incomodada com o bate-bate na cadeira, a falação, e o desconforto palpável pelo tema. O que mal ou bem acabou me afetando. E nisso eu volto mais tarde, pra dar credibilidade a minha própria teoria.

O resto do filme foi todo no silêncio e na paz, com direito a palmas nos créditos finais. Achei meio “too much” as palmas, não colaborei com as mesmas, mas gostei do filme. Obviamente tem seus defeitos e passa longe dos maravilhosos “Os amantes do círculo Polar” e “Lúcia e o sexo”, do mesmo diretor. Ainda assim, por um acaso do destino, eu tive que trabalhar em Botafogo no dia seguinte e achei que era um sinal o filme começar bem na hora que eu estaria liberada. Resolvi assistir outra vez, sem o casal homofóbico, e na cia de amigas e a fancharada (mais algumas bibas) que eu tinha certeza que marcariam presença no Estação Botafogo.

Achei que assistiria o filme na paz, sem ficar tensa com comentários, ou com gente me sacudindo e falando sem parar durante o filme. Ledo engano! Começou até bem, mas o filme não agradou. Até ai tudo bem, mas o que realmente me incomodou foram as risadas, os aplausos, a falação, as piadinhas… tudo isso durante o filme! Muita falta de respeito dos tais “cult-bacaninhas”.

Mas sabe o que mais me impressionou? Foi minha conclusão/tese de que gays e lésbicas não sabem ter modos quando estão em sessões de filmes gls, onde sabem que vão estar rodeados por “irmãos e irmãs”. Eu realmente acho que se essas mesmas pessoas estivessem num cinema qualquer, assistindo um filme hetero, elas estariam quietinhas, ainda que não gostassem do filme. O problema é que a sessão quando está povoada de bicha e sapatão, fica todo mundo achando que tá no Show do Gongo e começam a palhaçada.

É só apagar as luzes que começam as piadinhas, impressionante! Já vi uma biba abrir um leque do meu tamanho no meio do filme. Levei um susto do car*lho e perdi completamente a concentração. Pode uma coisa dessas? E muitos vão falar que fizeram isso porque o filme não era bom, não estavam gostando e todo esse bla bla bla, mas isso não é uma desculpa boa, concorda? Pessoas como eu pagaram pra assistir o filme e por incrível que pareça *não* estão afim de ouvir seus comentáriozinhos cretinos. Guarde isso pra uma crítica a la Wicked Twins no dia seguinte.

Cena de "Cidade dos Sonhos"

Mas a verdade verdadeira (rs) é que nos ver na telona é de alguma forma desconcertante. Não estamos acostumados e acabamos agindo como criancinhas no playground quando isso acontece. E não me excluo desse grupo exatamente porque o casal e seus comentários me deixaram um tanto tensa na primeira sessão. Lembro bem também de quando fiz piadinhas (em voz baixa, ok?) pro meu amigo que estava comigo na sessão de “Cidade dos Sonhos”, quando a cena lés me pegou de surpresa. Simplesmente agimos de uma maneira diferente.

No próprio “Um quarto em Roma”, nessa sessão, em 5 minutos de filme, quando ainda não ficou duvidoso (em termos de bom ou ruim, seja lá a conclusão que chegue a respeito do filme), rola o primeiro beijo. Só essa cena já foi o suficiente pra uma fancha-sem-noção mandar uma piadinha, e as amigas fanchinhas todas com aquele risinho nervoso, sabe? Chego a conclusão de que gays e lésbicas não sabem se ver no cinema. É raro, eu admito. Estamos constantemente queer starved (eu então…) e torna-se algo atípico ver aqueles personagens fazendo coisas que a gente (aka rainbow people) faz.

O Fil até me questionou sobre isso, dizendo que atualmente existem muitos filmes focados em personagens gays, que abordam de maneira natural, etc, etc. Mas a questão é que a maioria desses filmes se encontram na internet, e a menos que você seja escolado em torrents e sites de download e compartilhamento, você não consegue acesso a esses títulos. E convenhamos, a maioria deles são assistidos em casa, no escurinho e silêncio da privacidade de nossos quartos.

"Quando a noite cai", de Patricia Rozema.

Lembro quando ainda era um bebê (uns 17 anos) e assisti “intencionalmente” meu primeiro filme lésbico, Quando a noite cai (When night is falling). Assisti eu, minha melhor amiga (que tinha minha mesma idade, e estava na mesma situação que eu), e uma amiga mais velha, que estava nos mostrando seu amado filme. Lembro que fiquei desconcertada, e minha amiga também fez piadinhas que me fizeram rir de nervoso quase durante o filme inteiro. Óbvio que nossa hostess ficou irritada, e com razão. Parecia que não estávamos levando o filme querido dela a sério. Mas a verdade é que não sabíamos como…

Pra concluir logo esse post, que ninguém mais deve estar aguentando ler, acho que é preciso existir essa consciência pra que esse tipo de coisa se torne mais natural e pare por aí. Afinal foi insuportável aguentar aquele público infantil e mal educado por quase 2 horas. E o pior, com a atitude deles, fica difícil gostar do filme. Minhas amigas, que estavam comigo, não gostaram, mas as duas admitiram que o comportamento do público atrapalhou, e acabou influenciando um pouco. Elas tinham suas críticas, e provavelmente não teriam gostado anyway, mas é sempre bom poder tirar suas próprias conclusões sem a pressão de risadas, sarcasmo, e palmas durante cenas polêmicas.

Consigo entender, porque como já disse, eu também já agi assim, mas é hora de crescer, pessoal! Assim como já temos Gus Van Sant, Todd Haynes, Greg Araki, e cia, vamos ter também Lisa Cholodenko e… e… ok, não temos “grandes” diretoras lésbicas, mas os filmes vão vir, e nós vamos nos acostumar a assistí-los sem vergonha, sem risinhos nervosos, sem desconforto e o mais importante: sem falta de educação.

Um desabafo by,

Rafinha aka Wicked sis.

 

10 respostas a Porque gays e lésbicas tem dificuldade de se controlar quando se vêem retratados no cinema?

  1. Flora diz:

    Realmente, eu ñ curti mto o filme, mas adorei sua crítica do público. Está na hora dessa gente “conscientizada”, mostrar que é também educada e madura. No fim só me resta constatar que o Mundo ainda é careta demais.

    Beijos

    ps: vê se deixa de trabalhar e tira um tempinho para os amiguinhos.

  2. ftostes diz:

    Concordo muito, amore. Eu lembro quando fui na primeira sessão do Cineclube LGBT e saí chocado. Aquelas pessoas eram ignorantes, e nunca se comportariam assim em uma sessão se cinema normal. Me parece baixa auto estima, por que alguem avacalharia tanto uma sessao de um filme que está tentando te representar? Por que você assume o papel de palhaço num cinema, onde as pessoas estão ali pra assistir um filme, e não uma performance sua? É tão ridículo, me dá pena mesmo…

  3. Clarissa diz:

    Tava ansiosa para ler seu post sobre o assunto. Vc fez uma (auto)analise muito interessante que eu gostaria de estender: não so gays e lésbicas têm esse tipo de reação, mas todos. Quando assisti Tropa de Elite 2, fiquei pensando muito sobre a reação do publico. O que lhe da o direito de falar alto e dividir comentarios com o resto da platéia inteira? Os espectadores sentiam – e isso era claro – que todos os outros na sala compartilhavam aquelas mesmas sensações e seriam, portanto, seus cumplices. A maioria não teria o mesmo tipo de comportamento num filme americano, por exemplo, ainda que falasse sobre os mesmos assuntos. Quando nos reconhecemos na tela, parece que temos uma certa dificuldade de lidar com isso: ficamos alterados, excitados, nervosos. O pubico brasileiro (não posso falar de outros) não costuma se sentir retratado no cinema, de um modo geral. E concordo, esta na hora de a gente se colocar mais na telinha, e de a platéia se habituar a isso.

  4. denise diz:

    tenho essa percepção não só na telona, até aqui mesmo na telinha do computador… esse hiato ‘cristão’ de repressão faz com que a gente não saiba se portar quando tem a oportunidade de falar (ou se ver em telas gigantes), né?. Acho que faz parte do processo, até porque toda fleuma cínica só é conquistada após muitos eventos vergonhosamente sórdidos (ainda que eles sejam bem… humanos! rs..)

  5. adrimoraes80 diz:

    Infelizmente, esse filme não esteve na seleção da Mostra de São Paulo. Tive que assisti-lo em casa mesmo, graças a um download realizado rapidamente. Talvez por isso, tenha considerado o filme excelente: delicado e comovente, sem ser piegas ou apelativo.
    Quanto ao comportamente da platéia nessas duas sessões no Rio, realmente desprezível. O único filme com uma temática gay a que assisti foi Brokeback Mountain, do Ang Lee. Não me lembro de problemas na sessão, talvez um ou outro risinho, mas nada que prejudicasse a atenção dos interessados em ver o filme. E foi em uma sala Cinemark, em um shopping de São Paulo.

    Na verdade o que mais me incomoda é essa distinção “filmes GLS”. Ora, não existe filme do gênero heterossexual, por que haveria “GLS”? Com exceção dos pornôs, essa diferenciação não cabe. Adoro cinema, sua linguagem e mágica. Assisto a filmes que tratem do que há de universal no ser humano, pouco importa se retrata um judeu, polonês, açogueiro ou astronauta. Não me importo se o protagonista é um homem que gosta de outro, mas que tenha uma alma a ser retratada, como no filme “Single Man”, que chegou ao Brasil com o péssimo título de “O Direito de Amar”.
    Tudo isso para dizer que acredito que é essa taxação GLS que impede que filmes que tenham tenham temática gay sejam vistos como devem ser: como qualquer outro. Por isso, indico “Room in Rome”, pela sua forma de tocar, de relacionar-se com a pintura, de brincar com a História com letra maiúscula com aquela escrita com minúscula e que, no entanto, pode ser “a história” para as personagens e “uma história” para os que a assistem. Um filme em que as personagens estão em um Hotel, antigo teatro na Roma antiga, com nomes e informações que não sabemos ser reais ou mera representação teatral, em que tudo pode ser como não ser, é realmente fantástico. O dia que nasce e com ele a possibilidade das personagens reconhecerem a si mesmas, assim como ganham contornos mais definidos os quadros do quarto de hotel. Digam, como esse filme pode ser visto apenas como “GLS”?

    • Olá!

      Que bom que gostou do filme. Eu também gostei e já baixei pra adicionar a minha coleção. Concordo com você em gênero e número quando diz que os personagens GLS devem ser absorvidos pelo cinema e não ficar segmentados a um gênero. Mas acho que é indiscutível que ele existe, e sua importância.

      O movimento New Queer Cinema foi imprescindível no cinema americano para lutar pelo espaço desses personagens no cinema, e que a representação fosse diferente daquilo que se tinha visto até o momento, os personagens e situações estereotipadas.

      É que nem a questão de ter dia da mulher, da consciência negra ou do orgulho gay. Porque se não existe o dia do homem heterossexual branco? Acho que estão ali pra nos lembrar que a diferença ainda existe, e que precisamos batalhar pra que cada vez seja mais difícil de se enxergar essas fronteiras.
      🙂

  6. adrimoraes80 diz:

    Rafaela,

    Acredito que o movimento tenha a sua importância e que a inserção cada vez maior de personagens gays no cinema também esteja relacionada ao “politicamente correto” e a uma geração de cabeça mais aberta, uma moçadinha de 15 a 20 anos que tem me surpreendido.
    Teve a oportunidade de assistir a “Quando partimos”, aí no Festival do Rio? Acho que vale um post seu a respeito. Eu adorei e gostaria dos seus comentários a respeito.

  7. Marcia "Kuén" diz:

    É rafinha, vivendo e aprendendo….não tem jeito; achei super bacana seu desabafo..demonstra um banho de maturidade. Gostei!
    Bj
    Kuén.

  8. EU ACHO QUE O PROBLEMA MESMO É A FALTA DE EDUCAÇÃO….

  9. Erika diz:

    Muito bm Rafaella!
    Cncordo plenament cm voc!!
    Ainda sou muito nova e isso me ajudo muito ah entende muitas coisas, coisas que ja tinha deixado de lado por não entend!
    Voc tm um senso critico otimo e sabe uza as palavrs d uma maneira splendida!
    Parabns*

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