Crítica – Desenrola

O Cinema Brasileiro tem se esforçado para mudar um dado preocupante: adolescentes não costumam assistir a filmes nacionais. Em defesa do público teen, o mercado nunca produziu filmes visando esta fatia, mas uma leva recente está tentando mudar esta situação. Em 2010, estreou o ótimo As Melhores Coisas do Mundo (idem, 2010), de Laís Bodanzky, e agora é a vez de Rosane Svartman e o seu Desenrola.

Em comum, ambas as diretoras vieram de um longo projeto de pesquisa, tentando entender o que o jovem gostaria de ver retratado na tela. E todo esse estudo valeu a pena. Dentro do vasto mundo dos adolescentes, os dois filmes conseguem ser intensos na medida necessária, além de bem diferentes um do outro. Bodanzky possuía uma abordagem mais séria, e conseguiu fazer um grande filme sem diminuir, nem imbecilizar, seu público-alvo. Svartman vai por um lado diferente, mas não menos digno, e se propõe a fazer um filme de verão, divertido, desmistificado, mostrando um outro lado do jovem. Não que os problemas aqui não sejam sérios: são efêmeros, porém eternos, como apenas na adolescência eles podem ser.

Desenrola parece ser bem mais conectado com o universo jovem. Seja pela trilha, pelo elenco, pelos temas do roteiro, pela suavidade com que caminha entre eles. Olívia Torres, que depois das gravações entrou para o elenco de Malhação, interpreta Priscila, uma menina meio desajeitada, que é apaixonada pelo irmão mais velho da colega de sala Tize (Juliana Paiva, atualmente em Ti Ti Ti). Para escalar Rafa, o irmão super descolado, popular, surfista, desejado por todas as meninas, Rosane pesquisou entre o público jovem e chegou a conclusão que teria que ser Kayky Brito, o que inclusive mudou um pouco o perfil do personagem. Priscila ainda tem um admirador (Boca, interpretado por Lucas Salles) bastante estabanado na forma como demonstra seus sentimentos, que parece dizer sempre a coisa errada na hora errada. O modo com que ele aborda uma colega para fazer uma pesquisa é hilária e ilustra bem a sutileza que tanto falta para meninos nessa idade.

Embora o filme não engrene imediatamente, como se os personagens demorassem alguns minutos para ficarem totalmente a vontade dentro do filme, aos poucos a história, contada de forma tão sincera, com atores que não tentam fingir ser algo que não são, lidando com coisas tão mundanas quanto importantes na vida de uma pessoa, vai conquistando exatamente pela simplicidade. É sobre uma menina que vai ficar 20 dias sozinha em casa, e nesse período vai lidar com a virgindade, namoros, gravidez, homossexualidade, popularidade, escola, família, amores, e toda aquela sensação inexplicável de que uma vida inteira se passa em 2 semanas da vida de um adolescente.

Desenrola ainda merece todos os méritos técnicos que filmes como Muita Calma Nessa Hora (idem, 2010) desconhecem. A direção de Rosane Svartman nunca esteve melhor, a fotografia de Dudu Miranda encontrou o tom certo de verão que tanto faltou pra Búzios de Muita Calma. A edição é ágil na medida certa, é jovem, mas não é video-clipe. A direção de arte de Fabiana Egrejas tem o colorido que tanto caracterizam o universo jovem, sem ser pastiche, ou inorgânico.

Vale destacar ainda as participações especiais e infelizmente breves do elenco adulto, que contam com Letícia Spiller, Marcelo Novaes, Claudia Ohana, o jornalista Pedro Bial, Roberta Rodrigues (que tem uma das melhores cenas do longa, desconstruindo o personagem Boca com um ótimo diálogo, mostrando o quanto ele não fazia nada, achando que fazia tanto) e Juliana Paes. Os adultos, nesse caso, servem como ponte para o resto do público, os que assistirão Desenrola com nostalgia, desejando ter 16 anos, ou tentando entender o que se passa na cabeça da juventude. O bacana é perceber que todos já tiveram essa idade, e que não adianta desesperar, proibir, ou sequer tentar entender na plenitude. Só quem entende um adolescente é ele mesmo, ou muitas vezes nem ele. É orientar e torcer pra tudo dar certo no final.

Desenrola é um bom retrato da juventude, gostoso de assistir, independente da idade. Agora nos resta torcer pra que o público-alvo dele, os jovens, também sintam isso. O cinema nacional está de parabéns quando fala sobre juventude, nas poucas vezes que tentou. Está na hora do público começar a reconhecer isso.

Nota: 7,5

O trailer:

 

 

 

Uma resposta a Crítica – Desenrola

  1. Aqui é a Rosane, diretora do filme. Achei muito bacana ler essa crítica, observações bem interessantes. Vamos ver se outros filmes sobre esse universo adolescente pipocam por aí. Tenho certeza que de alguma forma eles se somam – tentando mostrar a cara desse jovem brasileiro – e que se ajudam nas bilheterias também. Obrigada! Abs

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