Broadway – Dia 01 – Hedwig and the Angry Inch

O que fazer quando ao chegar em NY em um sábado, você já perdeu todos os Rush Tickets possíveis, está quase de noite e você ainda não tem ingresso pra peça nenhuma? O jeito foi apelar pro TKTS da Times Square, coisa que eu odeio e evito ao máximo. A fila é sempre enorme, mas confesso que anda bem rápido. Também faço mea culpa porque me diverti muito quando um assistente da fila perguntou pras brasileiras atrás de mim o que elas queriam ver e elas responderam Mamma Mia e ele só mandou um “Damn Turists”. Confeço que ri. E peguei uma dica de “Nevermore”, um musical novo Off-Broadway que o pessoal da fila estava falando muito bem. Vou tentar encaixar.

Captura de Tela 2015-01-28 às 03.14.40Fila enfrentada, ficou a dúvida: O que assistir? Eliminando tudo o que eu já comprei, e tudo o que eu possivelmente conseguirei via Rush Tickets, tudo o que vale a pena comprar full price, e principalmente o fator de que gosto de começar e fechar bem, não podia escolher outra que não Hedwig. Talvez eu conseguisse por Rush, mas essa merecia um lugar melhor, uma visão perfeita… queria estar mais perto do palco, queria ver o John Cameron Mitchell de perto, queria sentir a vibração de assistir um dos atores/diretores/autores que mais admiro interpretar essa personagem tão incrível.

Pra quem não sabe, Hedwig estreou em uma boate em NY em 1994 e demorou alguns anos até estrear off-Broadway em 1998, ganhando vários prêmios. Em 2014, foi montada enfim na Broadway com Neil Patrick Harris como a protagonista (JCM afirmou que não queria fazer, que não queria o compromisso de ficar meses em cartaz, fazendo 8 shows por semana). Originalmente, o personagem protagonista seria Tommy, que é levemente inspirado no próprio JCM, um filho de militar, gay, que tinha uma babá/prostituta alemã, mas aos poucos Hedwig se tornou a personagem principal. JCM escreveu o book, com músicas de Stephen Frask. Na peça, acompanhamos Hedwig stalkear Tommy, seu ex-namorado, que roubou suas músicas e a abandonou. Já tentei algumas vezes escrever a sinopse de Hedwig mas nunca consigo. São tantos os temas que transbordam durante a peça… o não pertencimento, o deslocamento, a tentativa de Hedwig se tentar encontrar sua metade, de entender o que é a metade… a forma como ela dá uma parte de si tentando encontrar esse amor, essa aceitação, e como ela vai ficando amarga… Vivendo sobre o motto de que “to be free one must give up a little part of oneself”, ela acaba dando demais.

Fui, estava com medo, mas fui com medo mesmo. Medo de me decepcionar. São anos e anos de expectativa, um filme que marcou minha vida, uma das melhores atuações que eu vi no cinema, a melhor trilha sonora, e ano passado eu tinha assistido com o Neil Patrick Harris, o que por si só já é big high heels to fill. NPH tinha sido fenomenal. Ou seja, JCM tinha um pedestal pra escalar, embora eu soubesse que ruim dificilmente seria. Achei que não viveria pra ver o dia que assistiria JCM fazendo a peça.

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E o que dizer? Desde a entrada o público foi ao delírio. Percebi logo ali, de cara, que eu não era a única pessoa que sonhava em ver o JCM fazendo Hedwig na Broadway. Nem de perto. Era êxtase total. Chegou a um ponto onde o público levantava pra aplaudir no meio da peça. E merecido. Ao final da peça, não sei dizer quem estava mais satisfeito, mais destruído emocionalmente pela viagem que percorreu, JCM ou o público.

Sobre as diferenças da versão anterior pra essa, são tantas que é até difícil enumerar… as piadas com o público mudam muito, até pq é quase um stand up, muitas piadas com fatos atuais… Eu senti JCM mais a vontade, como é de se esperar. Menos “ensaiado”. Dava pra perceber que ele fugia muito mais do roteiro, brincava mais livre… Eu sentia NPH interpretava muito bem Hedwig, mas JCM é Hedwig, e isso é muito difícil de competir. Aliás, os momentos menos inspirados da versão de Mitchell é quando ele parece “obrigado” a seguir uma coreografia… NPH é Broadway, combina com ele. Os saltos, os movimentos coreografados de microfone… lindos, e certamente ele pula e cai todo dia no mesmo lugar. E não tem nada de errado com isso. Mas JCM é punk rock, ele não acerta as notas como costumava fazer, nem como o NPH fez, mas ele é puro coração, sentimento. A cada música você vê aquele personagem sendo despido (até literalmente) e é emocionante demais. Não tem como não sentir que é o próprio JCM se despindo, se doando, entregando uma parte de si pra platéia, vivendo aquela catarse. Pra quem estiver na Broadway pelas próximas semanas, vale muito a pena.

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PS: JCM é muito tímido, e no final ele não assina as Playbills, nem tira selfies, mas sai distribuindo balas autografadas, as mesas citadas na letra de “Sugar Daddy”.

Destaques

Nossa, escolha de Sofia… Amo tanto todas as músicas dessa trilha… Mas acho que a minha favorita, e principalmente, a que ficou mais foda nessa versão da Broadway atualmente, é The Origin of Love (mas o que segue é a versão do filme, com o JCM)

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