Broadway – Dia 02 – The Elephant Man

EM2Meu segundo dia na Broadway foi definitivamente um dos mais cansativos de todas as minhas viagens pra essa terra. Pra começar, como é minha primeira vez no inverno, o frio finalmente começou a pegar pesado. Se você estava numa bolha e não leu nenhuma notícia sobre NY nos últimos dias, uma tempestade histórica estava programada pra chegar por aqui na segunda, e nesse meu segundo dia, o domingo, já estava bem frio. Como sempre faço, acordei e fui correr atrás de Rush Tickets. Como aos domingos as bilheterias só abrem ao meio dia, achei que chegar 10h estava de bom tamanho. Meu plano inicial era tentar algo menos concorrido, “It`s only a play” ou “Disgraced”, mas ao passar em frente ao teatro do “The Elephant Man” e ver a fila relativamente pequena, umas 10 pessoas, achei que era uma boa tirar essa mega concorrida do caminho. Afinal, o ator principal é o Bradley Cooper, queridinho de Hollywood, que acabou de ser indicado pela terceira vez seguida ao Oscar.

Aqui vale explicar como funciona o Rush Ticket dessa peça especificamente. Quando a bilheteria abre, se os ingressos pras sessões do dia estiverem esgotadas, eles vendem 16 ingressos chamados Standing Room Tickets. Isso significa que você assiste em pé, atrás da platéia, e paga um preço mais barato. Nesse caso, 42 dólares. Tudo parecia tranquilo, foram duas horas na fila batendo papo com outros fãs de teatro, no frio congelante, mas tudo dentro do esperado. O problema foi quando abriu a bilheteria, e descobrimos que a peça não estava esgotada… Como pode? Ator de cinema, peça clássica, fim de semana em NY… o jeito foi fazer o que qualquer pessoa normal faria. Ficar em pé na fila até a peça esgotar. Ou seja, fiquei em pé de 10h até as 15h, hora que começou a matiné. E a peça não esgotou. Desespero na fila, gritaria e confusão. Ninguém entendia como a peça não estava esgotada, mas ainda tinham 11 ingressos, a 159 dólares para serem vendidos. O que fazer? O que qualquer pessoa normal faria, continuar em pé pra ver se a sessão das 19h esgotaria. Até que deu 16h30 e a mulher da bilheteria se apiedou da gente e decidiu vender os ingressos promocionais, mesmo com a peça sem estar esgotada. Ou seja, foram 6h30 em pé esperando pra pagar 42 dólares para ter o direito de ficar mais 2h em pé assistindo uma peça.

Valeu a pena? Sim, sempre vale a pena. O Homem Elefante é uma peça de 1977, escrita por Bernand Pomerance, que já foi encenada diversas vezes (uma vez até com o David Bowie), ganhou vários Tonys e Drama Desks, e que é mais conhecida do grande público pelo filme dirigido pelo David Lynch com o John Hurt, se não me engano. O filme não foi baseado na peça, mas ambos, filme e peça, se inspiraram na vida de Joseph Merrick, um homem com severas deformidades pelo corpo que viveu em Londres no final do século 19. Viveu sendo exibido em feiras, até ir morar no Hospital de Londres, se tornando querido da aristocracia inglesa. A versão atualmente na Broadway tem Bradley Cooper como o homem elefante, Alessandro Nivola como o médico responsável por estuda-lo, e Patricia Clarkson como Mrs. Kendall, uma atriz que tenta integrar Merrick de volta à sociedade.

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O maior problema da peça é ser extremamente convencional. Dos cenários, ao tom dos atores, iluminação, ao texto… tudo parece carecer muito de coragem de ousar, de sair do seu quadrado… Talvez seja reverência demais ao texto original. Uma pena, e de um diretor experiente. Só pra dar uma dimensão, Scott Ellis, o diretor, tem outras 3 peças só essa temporada (You can`t take it with you, The Real Thing e On The Twentieth Century). Vamos ver se nas outras que eu assistir ele se sai melhor. Também é conhecido (aparentemente por todo mundo, menos eu, como descobri na fila pros ingressos) que Bradley Cooper é apaixonado pelo texto, e fez sua tese no Actors Studio sobre ela.

Como comparação, a última peça que vi no Brasil foi exatamente uma montagem de O Homem Elefante que está em cartaz no Rio e que é incrível. O que eles fazem com apenas 4 pessoas e um teatro intimista e uma iluminação fenomenal, e atuações viscerais… é uma aula de teatro que o Bradley Cooper devia ter assistido. A atuação do Bradley é até muito boa, assim como a de Alessandro Nivola. Sempre inteligentes, fazem todas as nuances do texto de forma correta. Bradley faz seu melhor personagem, mas nem sempre um texto super estudado significa que o resultado é extraordinário. Patricia Clarkson, por exemplo, parece tão mais a vontade, mais fluída, mais brincando com o texto, sempre tomando cuidado pra não destoar, mas sem se engessar dentro da montagem restritiva.

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Ainda é uma ótima peça, mas definitivamente não é tão memorável quanto eles gostariam que fosse. Aliás, tô me esforçando pra escrever sobre, pois de domingo pra cá eu já vi 3 peças infinitamente melhores, que realmente parecem querer levar o teatro pra outros caminhos. A Broadway não é lugar comum, e as peças aqui não podem se conformar em simplesmente serem corretas.

Nota: 6,0

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