Velha Geração – Geoffrey Rush vs Anthony Hopkins

Fevereiro 12, 2011

Acabei de voltar do cinema, onde tive duas experiências bem diferentes, com atores igualmente talentosíssimos, mas que tomaram direções totalmente opostas em sua carreira. Como já está virando tradição, eu vou pro Plaza as sextas, assisto um filme bem ruim, que só me prepara pra assistir um filme muito bom em seguida. Nessa semana, fiquei com O Ritual e O Discurso do Rei.

Em primeiro lugar, O Ritual é ruim. De verdade. Personagens banais, esquematizados, que toda a hora que abrem a boca é só pra passar pro público alguma informação que o Demo vai usar contra eles na hora do exorcismo. Era pro chifrudo saber tudo da vida deles, detalhe por detalhe, mas acho que ele, assim como os espectadores, se contentou em saber apenas o “Thats what you missed in…. Rit”. Mas até aí, não posso reclamar de nada, o filme tá dentro das premissas dele. Mas eis que surge Sir Anthony Hopkins. Até eu tenho que concordar que coloca-lo incorporando um demônio não é uma idéia ruim. Eu olho pra ele e já morro de medo. É um dos maiores vilões de todos os tempos, certo? Mas não. O filme é tão ruim, mas tão ruim, que quanto Tony incorpora, eles enchem a cara dele de CGI. Isso mesmo, minha gente, a anta que fez esse filme julgou que a atuação não era assustador o suficiente. E no meio do martírio que foi assistir esse filme, pensei em qual foi a última vez que eu vi Mr Hopkins num filme bom… Ele tava uma bosta em Lobisomem. Ele foi o pai do Alexandre, naquela bomba. Fez uma animação ruim, Beowolf. Teve o último filme ruim do Woody Allen, um filme médio com a Gwyneth Paltrow, interpretou um negro no filme que a Nicole Kidman faz uma empregadinha. Chego a triste conclusão de a última vez que ele prestou foi fazendo Hannibal Lecter.

Meu primeiro instinto me levou a sentir pena. Ele deve ter contas pra pagar, né? Com uns 73 anos, os remédios devem estar caros, o sistema de saúde nos EUA são horríveis, ele deve estar vendendo a alma, quase que literalmente. O próximo dele vai ser Thor, pra você ter uma idéia. Mas eis que troco de cinema e me deparo com Geoffrey Rush. Ok, ok, ele só tem 60 anos, mas ainda assim. Geoffrey é relevante.

Assim como Tony, Geoffrey também ganhou um Oscar na década de 90, por Shine. E desde então, o que ele fez? De imediato lembro da dobradinha Shakespeare Apaixonado e Elizabeth. Não são filmes perfeitos, mas ele certamente está muito bem em ambos. E não podemos esquecer do inesquecível Marquês de Sade. E ele também vendeu a alma pro Piratas do Caribe, mas isso só o tornou ainda mais relevante e versátil. Fez o independente australiano Candy, teve Frida, Munique, a voz em Procurando Nemo, ganhou todos os prêmios de TV com o filme sobre o Peter Sellers. E agora está em O Discurso do Rei.

Aqui abro um parenteses. Geoffrey está MARAVILHOSO no filme. Só não rouba a cena do Colin Firth porque não tem como, são interpretações complementares. Se tivesse o Oscar de melhor dupla, certamente era deles. Mr Rush tem uma das melhores perfomances do ano, num dos filmes mais significativos também.

O que nos traz a uma questão: Por que Anthony Hopkins não consegue fazer um filme bom? Por que ele não consegue ter a relevância que o Rush tem até hoje em dia?

 

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Críticas Literárias – Janeiro de 2011

Fevereiro 7, 2011

Bem, na falta de críticas diárias, vamos tentar ao menos resumos mensais, né? Acho que já é um bom começo! E como livros acabam não sendo tão numerosos quanto filmes no cinema, por exemplo, acho que não vai ser tão difícil.

1- Get Happy – The Life of Judy Garland – Gerald Clarke

Em primeiro lugar, tenho que explicar que não é a minha primeira biografia da Judy. Ela fazia parte de um estudo que visava gerar uma peça sobre a vida de uma das minhas atrizes favoritas. A anos invisto nisso, comprando e baixando filmes, e lendo tudo o que conseguia a respeito. Infelizmente, o Charles Muller e o Claudio Botelho passaram a minha frente e já tem planos de montar esse ano uma peça com o mesmo tema. Quase fico triste, mas eu quero mais, e pelo menos eles tem talento. Quanto ao livro, que é o que interessa, não foi minha biografia favorita dela não… Tinha boas expectativas, é a única entre as biografias a contar com cartas da própria Judy, e supostamente um filme protagonizado pela Anne Hathaway estaria sendo produzido tendo este Get Happy como base. Mas acho que ele acaba passando muito rápido por temas relevantes, que já haviam sido descritos com mais precisão nos outros livros. Filmes inteiros passam mal sendo citados, e essa era exatamente a parte que mais me interessava. O estilo do autor também é um pouco irritante, interessado demais em filosofar sobre a arte, o dom. E páginas e mais páginas de rasgação de seda cansam até pra quem concorda.

Nota: 6.0

2- Férias – Marian Keyes

Aqui vale uma explicação: Eu tinha começado a ler “Leite Derramado”, do Chico Buarque, mas viajei e esqueci o livro em casa. Resultado, parei numa Lojas Americanas e comprei a única coisa que dava levando em conta o buraco da minha conta bancária, as opções, e o fato de que eu estava a caminho de um cruzeiro. Eu sei, eu sei, oportunidade perfeita pra começar a ler Proust, mas dessa vez fiquei com uma leitura leve e divertida de Chick Lit. Então eu chego em um cruzeiro com bebida liberada e o bolso cheio de engov, deito na espreguiçadeira, ao lado da piscina, um drink na mão, um sorriso no rosto, e já na primeira página, nossa heroína está sendo hospitalizada com overdose/suicídio, e está sendo internada num centro de rehab! Ou seja, misturo bebida liberada com praticamente a biografia da Lindsay Lohan. Além disso, o livro não é bem escrito. Divertido ocasionalmente, mas a protagonista é extremamente irritante. Talvez esteja na hora de abandorar chick lits. Ou pelo menos preciso de personagens melhores.

Nota: 4.0

Pra quem está desesperado com meu nível cultural decadente, pra Fevereiro já terminei Chico e já engatei num Saramago. Bem melhor!


Crítica – Desenrola

Janeiro 17, 2011

O Cinema Brasileiro tem se esforçado para mudar um dado preocupante: adolescentes não costumam assistir a filmes nacionais. Em defesa do público teen, o mercado nunca produziu filmes visando esta fatia, mas uma leva recente está tentando mudar esta situação. Em 2010, estreou o ótimo As Melhores Coisas do Mundo (idem, 2010), de Laís Bodanzky, e agora é a vez de Rosane Svartman e o seu Desenrola.

Em comum, ambas as diretoras vieram de um longo projeto de pesquisa, tentando entender o que o jovem gostaria de ver retratado na tela. E todo esse estudo valeu a pena. Dentro do vasto mundo dos adolescentes, os dois filmes conseguem ser intensos na medida necessária, além de bem diferentes um do outro. Bodanzky possuía uma abordagem mais séria, e conseguiu fazer um grande filme sem diminuir, nem imbecilizar, seu público-alvo. Svartman vai por um lado diferente, mas não menos digno, e se propõe a fazer um filme de verão, divertido, desmistificado, mostrando um outro lado do jovem. Não que os problemas aqui não sejam sérios: são efêmeros, porém eternos, como apenas na adolescência eles podem ser.

Desenrola parece ser bem mais conectado com o universo jovem. Seja pela trilha, pelo elenco, pelos temas do roteiro, pela suavidade com que caminha entre eles. Olívia Torres, que depois das gravações entrou para o elenco de Malhação, interpreta Priscila, uma menina meio desajeitada, que é apaixonada pelo irmão mais velho da colega de sala Tize (Juliana Paiva, atualmente em Ti Ti Ti). Para escalar Rafa, o irmão super descolado, popular, surfista, desejado por todas as meninas, Rosane pesquisou entre o público jovem e chegou a conclusão que teria que ser Kayky Brito, o que inclusive mudou um pouco o perfil do personagem. Priscila ainda tem um admirador (Boca, interpretado por Lucas Salles) bastante estabanado na forma como demonstra seus sentimentos, que parece dizer sempre a coisa errada na hora errada. O modo com que ele aborda uma colega para fazer uma pesquisa é hilária e ilustra bem a sutileza que tanto falta para meninos nessa idade.

Embora o filme não engrene imediatamente, como se os personagens demorassem alguns minutos para ficarem totalmente a vontade dentro do filme, aos poucos a história, contada de forma tão sincera, com atores que não tentam fingir ser algo que não são, lidando com coisas tão mundanas quanto importantes na vida de uma pessoa, vai conquistando exatamente pela simplicidade. É sobre uma menina que vai ficar 20 dias sozinha em casa, e nesse período vai lidar com a virgindade, namoros, gravidez, homossexualidade, popularidade, escola, família, amores, e toda aquela sensação inexplicável de que uma vida inteira se passa em 2 semanas da vida de um adolescente.

Desenrola ainda merece todos os méritos técnicos que filmes como Muita Calma Nessa Hora (idem, 2010) desconhecem. A direção de Rosane Svartman nunca esteve melhor, a fotografia de Dudu Miranda encontrou o tom certo de verão que tanto faltou pra Búzios de Muita Calma. A edição é ágil na medida certa, é jovem, mas não é video-clipe. A direção de arte de Fabiana Egrejas tem o colorido que tanto caracterizam o universo jovem, sem ser pastiche, ou inorgânico.

Vale destacar ainda as participações especiais e infelizmente breves do elenco adulto, que contam com Letícia Spiller, Marcelo Novaes, Claudia Ohana, o jornalista Pedro Bial, Roberta Rodrigues (que tem uma das melhores cenas do longa, desconstruindo o personagem Boca com um ótimo diálogo, mostrando o quanto ele não fazia nada, achando que fazia tanto) e Juliana Paes. Os adultos, nesse caso, servem como ponte para o resto do público, os que assistirão Desenrola com nostalgia, desejando ter 16 anos, ou tentando entender o que se passa na cabeça da juventude. O bacana é perceber que todos já tiveram essa idade, e que não adianta desesperar, proibir, ou sequer tentar entender na plenitude. Só quem entende um adolescente é ele mesmo, ou muitas vezes nem ele. É orientar e torcer pra tudo dar certo no final.

Desenrola é um bom retrato da juventude, gostoso de assistir, independente da idade. Agora nos resta torcer pra que o público-alvo dele, os jovens, também sintam isso. O cinema nacional está de parabéns quando fala sobre juventude, nas poucas vezes que tentou. Está na hora do público começar a reconhecer isso.

Nota: 7,5

O trailer:

 

 

 


Crítica – Enrolados (Tangled)

Janeiro 10, 2011

Enrolados é definitivamente a volta da Disney ao seu bom caminho, que havia se perdido em algum lugar por volta de Mulan (idem, 1998). Desde então, o estúdio não havia mais conseguido achar um rumo, tentando encontrar um público diversificado que não se resumisse em meninas que gostavam de princesas ou meninos que gostavam de aventuras, vagando entre o humor descompromissado e as histórias grandiosas dos contos de fadas. Como se já não bastasse a crise de identidade, aconteceu no meio do caminho a animação em 3D, e com a qualidade dos filmes da Pixar, só restou à Disney fechar sua fábrica de sonhos em 2D, que durante décadas marcou a vida de tantas crianças.

A resposta inicial, além de distribuir os filmes da parceira Pixar, foi tentar fazer suas próprias produções em CGI, esquecendo todo o seu histórico de animações e tentando fazer algo totalmente novo. Os resultados foram abominações como O Galinho Chicken Little (Chicken Little, 2005) e Selvagem (The Wild, 2006), fracassos retumbantes que só empalideciam ainda mais quando postos ao lado de Toy Story – Um Mundo de Aventuras (Toy Story, 1995), Procurando Nemo (Finding Nemo, 2003) e Os Incríveis (The Incredibles, 2004). A segunda decisão da Disney foi consideravelmente mais inteligente: comprar a Pixar, e colocar a cabeça pensante de lá para comandar todas as suas produções de animação, John Lasseter. E para a felicidade dos fãs tradicionais, ele decidiu que já era hora das animações em 2D retornarem.

A primeira tentativa foi só isso. nada mais que uma tentativa. A Princesa e o Sapo (The Princess and the Frog, 2009) talvez tenha o mesmo valor que um Planeta do Tesouro (Treasure Planet, 2002), ou coisa que o valha. A Disney sabia de sua função no imaginário de meninas pelo mundo, que durante décadas, queriam ser princesas, como Bela Adormecida, Cinderela, Branca de Neve, Ariel. E daí surgiu a ideia de ter sua primeira princesa negra. Colocaram um príncipe anti-herói, para quem sabe atrair a atenção dos meninos, e se tudo desse errado, coadjuvantes divertidos pra tentar roubar a história. Infelizmente eles não eram engraçados, e não chegavam perto de um Gênio, de Aladdin (idem, 1992), ou Timão, de O Rei Leão (The Lion King, 2004). O seu fracasso voltou a ameaçar as animações da Disney, e a pressão para que a adaptação de Rapunzel desse certo era grande.


Todo esse prólogo para falar que Enrolados é mais que uma animação em 3D. Em tese, ela está na onda que Dinossauro (Dinosaur, 2000), ou o já mencionado O Galinho Chicken Little. É uma animação em CGI, sem ser da Pixar, mas aqui sim a Disney achou o seu caminho. Mais do que isso, encontrou uma nova forma de se fazer animação. Enrolados tem todo o estilo de um filme tradicional; é como se os animadores tivessem desenhado o filme, depois transformado em 3D. Nunca antes ambos os estilos estiveram tão bem combinados, utilizando o melhor que cada um tem a oferecer. O resultado é uma animação muito bonita de se ver, ao mesmo tempo ágil, com bons efeitos, sem perder a beleza clássica e aquarelada necessária pra um conto de fadas.

Tudo isso poderia ter servido para quase nada se o roteiro não fosse bem trabalhado, como o próprio A Princesa e o Sapo pôde provar. E a mudança de título de “Rapunzel” para “Enrolados” era um primeiro indício de que a Disney poderia estar trocando os pés pelas mãos novamente, ao tentar desesperadamente agradar meninos e meninas. Felizmente, a palavra-chave em Enrolados é equilíbrio. Se isso acontecia na animação, o mesmo ocorre na edição, que equilibra boas cenas de ação com momentos lúdicos de contos de fada.


Rapunzel talvez seja uma das princesas mais interessantes criadas pela Disney. Sua mãe tomou um remédio feito de uma flor mágica criada por uma gota de sol, típica de contos de fada, quando estava grávida. Como resultado, seu cabelo cresceu com poderes mágicos, podendo durar e recuperar a juventude perdida. Uma senhora com sério caso de Síndrome de Peter Pan sequestra a criança e a cria presa entre quatro paredes, em uma torre alta (de onde ela joga os seus cabelos para que os outros subam, já dizia minha avó). Rapunzel é claramente bipolar (como mostra uma sequencia divertidíssima onde ela questiona se deve ou não abandonar a torre), e durante um aniversário, decide finalmente realizar seu sonho de assistir o lançamento de milhares de balões que acontece todo ano, exatamente na mesma data. E não, não vou entrar no mérito politicamente incorreto do ato de soltar balões do lado de uma floresta.

Pra isso, Rapunzel precisa recuperar sua auto-estima depois de passar a vida inteira com uma mãe que a coloca pra baixo, que a convence que é feia, desajeitada, frágil e que não sobreviveria no mundo fora do seu quarto. Eis que surge em seu caminho Flynn Ryder, um ladrão que havia acabado de roubar exatamente sua coroa. A química entre os dois é imediata e o primeiro encontro já é hilário. Rapunzel o convence a levá-la para ver os balões, e em troca, ela lhe devolve a coroa. Ele aceita, acreditando que ela, munida de cabelo e uma frigideira, não vai ter coragem de seguir adiante com o plano. Flynn não é um personagem ruim. É até cativante, tem baixa auto-estima, vive em cima de um personalidade que não é a sua, tem boas cenas com todos os coadjuvantes, e funciona muito bem com a princesa.


Mas aqui reside o maior problema se você for assistir o filme nos cinemas brasileiros: a locução de Luciano Huck. Quando o filme começa, com a sua narração, parece que a torre vai ser invadida e reformada em um daqueles quadros que se proliferam na TV num sábado a tarde. E o mesmo tom, de locução de quadro de programa de TV assistencialista, permanece do início ao fim. Loucura, loucura, loucura. É sem dúvida uma das piores dublagens já feitas na história desse país. Um desrespeito sem tamanho, inexplicável. Colocar um ator global para dublar um filme, trabalho que muitos nunca fizeram e não são treinados para fazer, já era ruim o suficiente, mas colocar um apresentador foi o mais baixo que a Disney conseguiu chegar até hoje. Até onde eles estão dispostos a ir, denegrindo a qualidade do material, para conseguir mais público, ou mais publicidade? E pra piorar, não terão cópias legendadas no Brasil. Impressionante o esforço que alguns distribuidoras fazem para estragar um filme de qualidade.

E por falar em vilã, é preciso destacar Gothel, a senhora que não quer envelhecer. Sua tática para prender Rapunzel, a princípio, é genial e maquiavélica. Durante boa parte da projeção, os maiores danos que ela parece causar são todos psicológicos. E apenas quando simples armação e psicologia não parecem funcionar, ela apanha uma faca e parte para a violência física, lembrando por vezes a crueldade de grandes bruxas da animação, como a Madrasta de Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937), mas sem a beleza.

As músicas também estão no mesmo nível das grandes produções da Disney do passado. O compositor Alan Menken mostrou porque é mestre no que faz, com composições bonitas e suaves, que servem muito bem a história. Cada personagem com seu tema bem específico e todos muito bem encaixados. A música de Gothel, “Mother knows best”, poderia ser cantada por Úrsula, em A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 1989), “I’ve got a dream” poderia estar no bar de Gaston em A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 1991). E comparar as músicas com as desses filmes é o maior elogio que Enrolados poderia receber. O único porém é que faltou uma música mais forte, uma “A whole new world”, ou “Can you feel the love tonight”. A música do casal, “I See The Light”, provável indicada ao Oscar, é boa, e serve bem pra trama, mas não é um tema inesquecível.

O que nos resta agora é torcer pra que a Disney se mantenha no bom caminho, sem esquecer da importância de um bom roteiro, e sem renegar as origens do 2D e continuando a equilibrar tão bem quanto aqui o antigo e clássico, com as novas e necessárias mudanças. E que a Disney Brasil comece a respeitar um pouco mais seu público.


Crítica – Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte I

Novembro 20, 2010

Chega ao fim uma das mais longas e criativas franquias do cinema mundial. Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte I pretende abrir todos os caminhos para que ano que vem a série encerre com chave de ouro. Os estúdios prometem ainda o último capítulo em 3D (por pouco a parte 1 também não foi), o que deve gerar recordes de público ainda maiores. Aliás, disso a Warner não pode reclamar. Harry Potter foi sempre eficiente na hora de engordar os cofres. O que teve menor bilheteria, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, arrecadou quase 800 milhões de dólares pelo mundo. Harry Potter e o Enigma do Príncipe, o último lançado até então, chegou a quase 1 bilhão. As duas partes desse final pretendem bater todos esses números, e são bem capazes de conseguir.

Relíquias da Morte começa sem nem uma introdução. Muito justo, afinal foram 6 filmes antes, e se formos parar pra contar o que aconteceu nos capítulos anteriores, o filme, que já tem 2h30, ficaria ainda mais longo. Além disso, o diretor David Yates parece ter desistido de fazer um filme simplesmente comercial, onde qualquer um vá entender sem nenhum conhecimento prévio. Harry Potter é um fenômeno cultural, é um ícone pop, é o livro mais lido do mundo, perdendo apenas para a Bíblia, e sua autora é mais rica que a Rainha da Inglaterra. David Yates conta com isso, e sabe que nesse ponto, já passamos por toda a fase animais fofinhos, mágicas inocentes, e olhos brilhando com cada visita a Hogwarts. Em Relíquias, você já está apaixonado pelos personagens, ou pelo menos interessados neles. Você já conhece o universo em que eles vivem e até teme por eles. Afinal, nos últimos 3 filmes fomos “brindados” com mortes significantes nos últimos minutos. Aqui as mortes começam mais cedo, o que só realça a sensação de que ninguém está a salvo e a todo instante, com um simples Avada Kedavra, teremos mais um corpo estendido no chão.

Ainda assim, e esse é um problema recorrente na série inteira, Harry Potter tem problemas de ritmo. Aliás, ele sempre teve. Isso acontece em grande parte pois os livros, assim como na Saga Crepúsculo, tem fãs xiitas que não deixam passar nada desapercebido e fazem listas com todas as diferenças entre o livro e a tela grande, e se reclamam demais, certamente afeta o boca a boca e a bilheteria. E com uma patrulha tão intensa, é difícil tomar liberdades. Pra piorar a situação, a cada livro lançado, J.K. Rowling perdia sua capacidade de condensação, o que fez de Relíquias da Morte um verdadeiro tijolo. Será que era extremamente essencial que o livro virasse dois filmes? Não poderia ter sido feito apenas um com um ritmo muito mais ágil? Talvez. Mas a verdade é que Harry Potter ganhou muito com essa divisão. Pela primeira vez não temos a sensação que o diretor estava tentando incluir o maior número de referências literárias por frame, os tempos são exatamente o que os personagens precisam. E em uma história repleta de mortes, perdas e responsabilidades, era de se esperar que fosse diferente.

Harry, Ron e Hermione passam o filme inteiro fugindo, literalmente sendo caçados por Voldemort e seus Comensais da Morte. Eles são a última esperança para os bruxos, que têm vivido em um regime muito parecido com o nazismo. Um paralelo interessantíssimo, com muito crédito para Rowling, mas que visualmente também foi muito bem construído nos filmes, seja na propaganda contra sangue-ruins (pessoas que não nasceram bruxos) ou em toda concepção do Ministério da Magia. E para se preparar para o duelo final, Harry precisa achar e destruir as 7 Horcruxes, objetos que possuem um pedaço da alma de Voldemort. Sem destruí-las primeiro, Voldemort não pode ser plenamente derrotado.

 

Em Relíquias da Morte temos a clara sensação de que tudo o que assistimos até agora nos preparava para algo. Todos os feitiços que os personagens aprendiam a duras penas, e que pouco eram utilizados, agora fluem, conforme a necessidade vai surgindo. É como se eles vivessem na cena final da Ordem de Fênix, constantemente duelando, se protegendo. Ninguém segura, ou economiza na magia, que nunca esteve tão presente e utilizada. A história, que já foi bobinha e leve, agora está sombria e intensa. Hermione, por exemplo, começa o filme se apagando totalmente da memória dos pais, para protegê-los, e passa o filme todo atormentada por essas lembranças, sabendo que provavelmente nunca mais vai vê-los, e que se o fizer, eles não a reconhecerão. Ron é outro que deixou de ser alívio cômico para começar a enfrentar seus próprios demônios, e passa boa parte do filme escutando um rádio, com medo de ouvir a notícia da morte dos seus pais ou irmãos. Com isso, Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, enfim nos entregam interpretações de qualidade, com cenas que exigem mais deles em um filme do que em toda a série. O elenco de apoio continua magistral. Difícil imaginar um Voldemort melhor do que Ralph Fiennes, ou uma Bellatrix melhor do que Helena Boham Carter. Ponto pra eles que apostaram nos personagens, sem saber como eles seriam de fato desenvolvidos.

 

Apesar dos muitos momentos de reflexão entre as fugas, e com momentos muito tenros, como a dança entre Harry e Hermione, as cenas de ação estão em sua melhor forma em Parte 1. Muito bem construídas, com uma tensão que beira o filme de terror, principalmente na sequência na casa de Bathilda Bagshot. E ao perceber a eficiência com que os personagens conseguem sair das situações, dão um misto de orgulho e melancolia, ao constatar como o tempo passou para Harry e Hermione, e em como estivemos presentes por todo o caminho.

Mas nem tudo são flores. Hogwarts fez muita falta. Por mais interessante que este sétimo filme seja, não tem como não se perguntar o que estará acontecendo na escola, e quando Harry abre o mapa do maroto, brevemente, foi o suficiente para ansiar por acompanhar um pouco do que estaria acontecendo por lá. Também faz falta Michael Gambon e seu Albus Dumbledore, mas neste caso, é sem retorno. Pra quem não lembra, ele levou um Avada Kedavra no último filme, e agora só volta em flashbacks (ou pensamentos da Penseira, no caso). Também não foi bem trabalhado o romance entre Harry e Gina. Embora eles sejam o principal casal, aquele para quem deveríamos estar torcendo depois de sete filmes, acabamos torcendo estranhamente por Harry e Hermione. Nos livros não há nenhuma tensão romântica entre eles, mas é algo que aconteceu naturalmente nos filmes, sem pretensões, o que só aumenta a carga dramática dos personagens. Mas deixar a Gina Wesley tão apagada, principalmente depois do destaque que ela teve em O Enigma do Príncipe, é inaceitável.

No final da projeção, a impressão que fica é que Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 é um divisor de águas na série. É o primeiro filme onde não temos Hogwarts e a divisão de tempo que engessa tanto os filmes. Sempre acabamos os filmes porque o ano letivo acabou. E nunca o arco dramático do filme podia terminar antes de acabar o ano letivo. Dessa vez há uma ruptura em tudo que ficou pré-determinado como ritmo e narrativa até aqui, e isso é muito bom. É mais imprevisível, e isso foi essencial para a série. Fica a impressão de que o melhor filme, na verdade, é aquele que está por vir. É torcer pra não termos essa expectativa frustrada.


Crítica – Federal

Novembro 9, 2010

Muito difícil escrever sobre um filme que não possui nenhuma qualidade. E Federal (idem, 2010) conseguiu me desarmar. São tantos defeitos injustificáveis que não sei por onde começar. Então, vamos seguir o processo “criativo” e iridentificando os erros conforme eles naturalmente forem aparecendo.

O roteiro, escrito pelo diretor Erik de Castro, Heber Moura e Érico Beduschi, é primário. Poderia ter sido escrito por meninos pré-adolescentes com mentes não muito imaginativas numa brincadeira de polícia e ladrão. O Jornal Nacional tem um roteiro policial melhor que Federal. Não é de se surpreender que a história incrível da polícia que… quer prender um bandido, tenha surgido na cabeça do diretor quando ele tinha 16 anos de idade.

Com o roteiro pronto, o próximo passo é conseguir alguém pra produzir o filme. Mais uma surpresa ao constatar que o produtor de Federal é o irmão do diretor, Christian de Castro. De todos os envolvidos, Christian é quem tem menos culpa no cartório. Se eu tivesse um irmão, que tivesse estudado em Hollywood e que tivesse um roteiro de um filme policial selecionado para o Laboratório de Sundance, eu também gostaria de produzir a estréia dele em longas de ficção. Qualquer falta de talento no caminho certamente teria sido ignorada devido ao amor fraternal, e na minha cabeça também pareceria um plano perfeito. Infelizmente, neste caso, não é.

Conseguido o dinheiro, o roteiro e a equipe (Erik fez diversas viagens, trazendo “ouro” para a sua equipe), era hora de começar a filmar… em 2006. Sim, o filme foi rodado há 4 anos, e por algum motivo desconhecido só conseguiu estrear na esteira de Tropa de Elite 2 (idem, 2010), quando as salas estão lotadas e as pessoas, precisando de uma segunda opção, podem achar que esse genérico vai suprir sua vontade por um pouco de violência justificada em um domingo a noite. Teriam mais sorte se tivessem assistido o filme da Katherine Heigl sobre corujas, ou até mesmo Piranha 3D (Piranha 3-D, 2010).

Lá em 2006, Michael Madsen tinha saído de uma série de filmes no mínimo trabalhosos. Dois filmes com Tarantino, Sin City – Cidade do Pecado (Sin City, 2005) e o primeiro capítulo de Crônicas de Nárnia. Era de se esperar que ele quisesse umas férias de graça em algum país latino, em troca de uma semaninha de trabalho. Madsen quase teve sorte, e o mundo por pouco nem precisou assistir o quão baixo ele consegue ir pra conseguir uns trocados. Mas Tropa de Elite (idem, 2007) aconteceu no meio do caminho e Federal foi desenterrado. Pelo menos ele ganhou mais uma viagem pra divulgar o filme no Festival do Rio.


Já Selton Mello não tem muitas desculpas. Sempre teve algum prestígio aqui, e embora em 2006 ele tivesse o fracasso de Nina (idem, 2004) e O Coronel e o Lobisomem (idem, 2005) pra prestar contas, nada justifica fazer Federal. Não que Selton esteja atuando mal, ele está apenas em piloto automático, e ainda teve a “vantagem” de contracenar em cenas de sexo e drogas com a Miss Colombia e 2o lugar no Miss Universo, Carolina Gomez. Aliás, esta é praticamente a única função das personagens femininas no filme, fazer sexo explícito desnecessariamente em cenas vergonhosamente mais longas que o necessário e usar drogas.

E chegamos ao cerne do problema, que é a direção do estreante em longas de ficção Erik de Castro. Alguns dos planos mais deselegantes que se poderia ver no cinema esse ano são de sua responsabilidade, e nenhum deles é justificado. É como se alguém tivesse explicado onde liga e onde desliga a câmera, e daí surgiu um filme. O que nos leva a questionar: Se ele não tem talento algum pra compôr planos, consegue extrair o pior de bons atores, recheaia o resto do filme com outros piores ainda, não consegue escrever um roteiro ou montar uma equipe de qualidade, quem disse pra ele que ele podia dirigir um longa-metragem com dinheiro público?

Nota: 0.0


Colocando a leitura em dia…

Novembro 5, 2010

Pra vocês que achavam que a gente tinha emburrecido nesse sumiço do blog e parado o ritmo de leituras, você quase acertou! A verdade é que esse ano estou achando que vou ficar bem abaixo das médias dos anos anteriores. Mas ok, eu passei um mês fora viajando pelas Orópa, e teve muito trabalho por ai, o que significa que se eu me esforçar consigo alcançar a meta dos 12 livros anuais, já que estou no décimo primeiro. Pra comprovar que estamos evoluindo em passos de tortuguita, seguem as resenhas toscas dos dois últimos livros que li.

1. The view from here: Conversations with gay and lesbian filmmakers (Matthew Hays)

Esse livro foi um achado em plena livraria do museu Georges Pompidou (Paris, França). Sim, eu sou chique, bem. Tava lá on my own babando nos livros de cinema quando me deparei com essa pérola, que estava em promoção, pela merreca de 7 euros, ou algo assim. Claro que eu comprei e devorei na viagem de volta. Algumas entrevistas são muito “2006” mas tá valendo, e o autor consegue resgatar títulos e diretores (alguns que – pasmem! – nem eu tinha ouvido falar) que merecem ser relembrados e ter seus trabalhos baixados… quer dizer, comprados ou alugados ou sei lá o que. Até porque fui procurar coisas das antigas, e fiquei só na vontade, porque são verdadeiras raridades.

Claro que todo mundo torce o nariz pra “categorias” e “gêneros” de cinema, mas eu realmente acho que o New Queer Cinema é um movimento. E um dos mais importantes da cinematografia norte-americana. Dele surgiram diretores como Todd Haynes, John Cameron Mitchell, Gregg Araki, entre outros. O triste é constatar como são poucas ainda as diretoras lésbicas, mas como diretoras mulheres já são poucas, gays então, pior ainda… Pelo menos temos títulos consagrados esporádicos como Meninos não choram (Kimberly Pierce), Go Fish (Rose Troche) – que eu particularmente não gosto mas é super queridinho dos “filhos de Sundance” – e Paris is Burning (Jennie Livingstone).

Pra quem quer conhecer um pouco mais do cinema queer, que não necessariamente fala exclusivamente de assuntos e personagens gays, mas que apresentam também uma estética peculiar, o “camp” (ficou com cara de interrogação? Wiki te ajuda: “Cultura camp é um termo utilizado para se referir aos adoradores de produtos culturais que são atraentes devido ao seu mau gosto e valor irônico”), vale a leitura. O tom “bate papo” torna a leitura mais prazerosa, mesmo em momentos “vergonha alheia do autor”. Recomendo!

obs: pra comprar, só recorrendo a gringolândia – clique aqui.

2. Deixa Ela Entrar (Let the right one in, John Ajvide Lindqvist)

Achei interessante ler o livro, mesmo depois de ter assistido ao filme por dois motivos: primeiro porque tanto o livro quanto o roteiro do filme são assinados por John Sbrubbles (é difícil tá?), e segundo porque eu já tinha lido em alguns lugares que algumas dúvidas que ficavam no ar na versão cinematografica, podiam ser tiradas no romance. Então lá fui eu conferir sabendo que não tinha muito como dar errado.

E realmente, o livro tem mais subplots que correm paralelamente e no final vão se cruzando, explica melhor as relações entre os personagens, principalmente o papel de Hakam na vida de Eli, além de deixar muito mais claro a natureza do(a) próprio vampiro. Mas ainda assim, o filme é melhor. Não sei se é porque vi o filme primeiro, e ele é tão poético… que realmente faz o livro parecer um pouco mais “Stephen King” (ouch.. ok, não tanto, mas você consegue entender, vai?).

E por hoje é só pessoal! Próxima crítica literária (da minha parte pelo menos) vai ser de “Carne Trêmula”, livro de Ruth Rendell que deu origem ao meu filme preferido do Almodóvar. E vou dizer, pelo que li até agora, é realmente uma adaptação sobre o “núcleo” da estória, porque nada a ver em muitos aspectos, o que me deixou bem decepcionada. Mas all in all o livro está me prendendo, então vamos que vamos e depois passo aqui pra deixar as impressões finais.