Críticas Literárias – Janeiro de 2011

Fevereiro 7, 2011

Bem, na falta de críticas diárias, vamos tentar ao menos resumos mensais, né? Acho que já é um bom começo! E como livros acabam não sendo tão numerosos quanto filmes no cinema, por exemplo, acho que não vai ser tão difícil.

1- Get Happy – The Life of Judy Garland – Gerald Clarke

Em primeiro lugar, tenho que explicar que não é a minha primeira biografia da Judy. Ela fazia parte de um estudo que visava gerar uma peça sobre a vida de uma das minhas atrizes favoritas. A anos invisto nisso, comprando e baixando filmes, e lendo tudo o que conseguia a respeito. Infelizmente, o Charles Muller e o Claudio Botelho passaram a minha frente e já tem planos de montar esse ano uma peça com o mesmo tema. Quase fico triste, mas eu quero mais, e pelo menos eles tem talento. Quanto ao livro, que é o que interessa, não foi minha biografia favorita dela não… Tinha boas expectativas, é a única entre as biografias a contar com cartas da própria Judy, e supostamente um filme protagonizado pela Anne Hathaway estaria sendo produzido tendo este Get Happy como base. Mas acho que ele acaba passando muito rápido por temas relevantes, que já haviam sido descritos com mais precisão nos outros livros. Filmes inteiros passam mal sendo citados, e essa era exatamente a parte que mais me interessava. O estilo do autor também é um pouco irritante, interessado demais em filosofar sobre a arte, o dom. E páginas e mais páginas de rasgação de seda cansam até pra quem concorda.

Nota: 6.0

2- Férias – Marian Keyes

Aqui vale uma explicação: Eu tinha começado a ler “Leite Derramado”, do Chico Buarque, mas viajei e esqueci o livro em casa. Resultado, parei numa Lojas Americanas e comprei a única coisa que dava levando em conta o buraco da minha conta bancária, as opções, e o fato de que eu estava a caminho de um cruzeiro. Eu sei, eu sei, oportunidade perfeita pra começar a ler Proust, mas dessa vez fiquei com uma leitura leve e divertida de Chick Lit. Então eu chego em um cruzeiro com bebida liberada e o bolso cheio de engov, deito na espreguiçadeira, ao lado da piscina, um drink na mão, um sorriso no rosto, e já na primeira página, nossa heroína está sendo hospitalizada com overdose/suicídio, e está sendo internada num centro de rehab! Ou seja, misturo bebida liberada com praticamente a biografia da Lindsay Lohan. Além disso, o livro não é bem escrito. Divertido ocasionalmente, mas a protagonista é extremamente irritante. Talvez esteja na hora de abandorar chick lits. Ou pelo menos preciso de personagens melhores.

Nota: 4.0

Pra quem está desesperado com meu nível cultural decadente, pra Fevereiro já terminei Chico e já engatei num Saramago. Bem melhor!


Colocando a leitura em dia…

Novembro 5, 2010

Pra vocês que achavam que a gente tinha emburrecido nesse sumiço do blog e parado o ritmo de leituras, você quase acertou! A verdade é que esse ano estou achando que vou ficar bem abaixo das médias dos anos anteriores. Mas ok, eu passei um mês fora viajando pelas Orópa, e teve muito trabalho por ai, o que significa que se eu me esforçar consigo alcançar a meta dos 12 livros anuais, já que estou no décimo primeiro. Pra comprovar que estamos evoluindo em passos de tortuguita, seguem as resenhas toscas dos dois últimos livros que li.

1. The view from here: Conversations with gay and lesbian filmmakers (Matthew Hays)

Esse livro foi um achado em plena livraria do museu Georges Pompidou (Paris, França). Sim, eu sou chique, bem. Tava lá on my own babando nos livros de cinema quando me deparei com essa pérola, que estava em promoção, pela merreca de 7 euros, ou algo assim. Claro que eu comprei e devorei na viagem de volta. Algumas entrevistas são muito “2006” mas tá valendo, e o autor consegue resgatar títulos e diretores (alguns que – pasmem! – nem eu tinha ouvido falar) que merecem ser relembrados e ter seus trabalhos baixados… quer dizer, comprados ou alugados ou sei lá o que. Até porque fui procurar coisas das antigas, e fiquei só na vontade, porque são verdadeiras raridades.

Claro que todo mundo torce o nariz pra “categorias” e “gêneros” de cinema, mas eu realmente acho que o New Queer Cinema é um movimento. E um dos mais importantes da cinematografia norte-americana. Dele surgiram diretores como Todd Haynes, John Cameron Mitchell, Gregg Araki, entre outros. O triste é constatar como são poucas ainda as diretoras lésbicas, mas como diretoras mulheres já são poucas, gays então, pior ainda… Pelo menos temos títulos consagrados esporádicos como Meninos não choram (Kimberly Pierce), Go Fish (Rose Troche) – que eu particularmente não gosto mas é super queridinho dos “filhos de Sundance” – e Paris is Burning (Jennie Livingstone).

Pra quem quer conhecer um pouco mais do cinema queer, que não necessariamente fala exclusivamente de assuntos e personagens gays, mas que apresentam também uma estética peculiar, o “camp” (ficou com cara de interrogação? Wiki te ajuda: “Cultura camp é um termo utilizado para se referir aos adoradores de produtos culturais que são atraentes devido ao seu mau gosto e valor irônico”), vale a leitura. O tom “bate papo” torna a leitura mais prazerosa, mesmo em momentos “vergonha alheia do autor”. Recomendo!

obs: pra comprar, só recorrendo a gringolândia – clique aqui.

2. Deixa Ela Entrar (Let the right one in, John Ajvide Lindqvist)

Achei interessante ler o livro, mesmo depois de ter assistido ao filme por dois motivos: primeiro porque tanto o livro quanto o roteiro do filme são assinados por John Sbrubbles (é difícil tá?), e segundo porque eu já tinha lido em alguns lugares que algumas dúvidas que ficavam no ar na versão cinematografica, podiam ser tiradas no romance. Então lá fui eu conferir sabendo que não tinha muito como dar errado.

E realmente, o livro tem mais subplots que correm paralelamente e no final vão se cruzando, explica melhor as relações entre os personagens, principalmente o papel de Hakam na vida de Eli, além de deixar muito mais claro a natureza do(a) próprio vampiro. Mas ainda assim, o filme é melhor. Não sei se é porque vi o filme primeiro, e ele é tão poético… que realmente faz o livro parecer um pouco mais “Stephen King” (ouch.. ok, não tanto, mas você consegue entender, vai?).

E por hoje é só pessoal! Próxima crítica literária (da minha parte pelo menos) vai ser de “Carne Trêmula”, livro de Ruth Rendell que deu origem ao meu filme preferido do Almodóvar. E vou dizer, pelo que li até agora, é realmente uma adaptação sobre o “núcleo” da estória, porque nada a ver em muitos aspectos, o que me deixou bem decepcionada. Mas all in all o livro está me prendendo, então vamos que vamos e depois passo aqui pra deixar as impressões finais.


Crítica literaria: Trilogia Millennium 2 e 3 – A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar

Julho 24, 2010

Ufa, 1.813 páginas depois, finalmente cheguei a conclusão da mundialmente famosa Trilogia Millennium do falecido Stieg Larsson! Como os que acompanham o blog já sabem, eu gostei bastante do primeiro livro Os homens que não amavam as mulheres (leia a crítica aqui). Foi realmente um livro “bom entretenimento”, daqueles que você devora rapidinho e não exigem muito da sua parte, intelectualmente falando. E convenhamos, as vezes é *necessário* ler livros pra se divertir, assim como ver filmes que tem como única e exclusiva função fazer a gente esquecer a vida e embarcar numa outra realidade. Mas desde então foram mais dois livros e seus respectivos filmes, e vou tentar falar um pouco de cada nesse post de hoje.

. Millennium 2 – A menina que brincava com fogo

Eu acho digno o final do primeiro livro da saga porque ele resolve o grande mistério do filme, ou melhor, o grande caso do filme, mas deixa completamente inacabado a questão pessoal dos personagens, o que justifica o formato de trilogia. O problema é que diferentemente do primeiro livro, os outros dois não focam em casos bizarros isolados, mas sim na fixação de Larsson por sua própria criação: Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist. Quando Lisbeth passa a ser o “caso” da vez a coisa desanda, na minha opinião. Sem contar que os personagens acabam ficando com uma vibe “perfeitos”. O Fil já sentiu isso no primeiro livro, mas acho que passa legal, já que eles estão sendo apresentados, você não fica tão íntimo até porque o mistério é o centro do livro e realmente ocupa seu devido lugar. Já nos livros seguintes, vira um festival de “fodões”. Todo mundo é o melhor no que faz e o desenrolar fica muito obvio.

Mas talvez eu já esteja me precipitando, ainda contagiada pelo terceiro e último livro, também o mais fraco dentre eles. Mas tanto no segundo, quanto no terceiro livro existem subtramas completamente desnecessárias, e se você parar pra pensar são umas 100 páginas a menos! No segundo livro, logo no começo temos um exemplo disso quando Lisbeth está viajando, fica matutando numa equação de Fermat, que obviamente o mundo demorou séculos pra descobrir, mas ela em toda sua fodereza chega a uma conclusão em algumas semanas – Really? – e ainda se envolve com um garoto negro que nada tem a acrescentar a história. O hotel onde está sofre com a passagem de um furacão e ela se depara com outro caso de um homem que odeia as mulheres, parcialmente resolve a questão e ficamos por isso mesmo. Você pensa que aquele acontecimento vai reaparecer to “bite you in the ass”, mas nope, era só aquilo mesmo. Fon fon fon.

Quanto ao segundo filme é legalzinho só. Assim como o segundo livro. Gosto porque tem mais girl on girl action, mas eu estou em constante estado queer starved e qualquer coisa que envolva duas mulheres, uma mulher e um metrossexual, ou dois menininhos de franjinha Gus Van Sant, já tá valendo. Noomi Rapace continua excelente como Lisbeth, mas a história empolga menos que a anterior. Já o resto do elenco não fazia lá muito sentido antes, então não ha muito do que reclamar. Detesto remakes americanos, mas quem sabe o casting de David Fincher não chega mais perto do livro? Mas vamos logo pro último capítulo da série, que é mais penoso pra mim…

. A rainha do castelo de ar

Pra se ter uma noção de como esse livro é fraco a história só engata lá pela página 300. Antes disso é um monte de bla bla bla e historinhas paralelas de novos personagens que vão pintando na história. Eu basicamente me arrependi de não ter parado no primeiro livro e deixado uma boa memória de um livro divertido, porque esse terceiro foi como um tiro no pé. E se no segundo livro o nível de fodereza já era mais evidente, aqui fica simplesmente insuportável. Larsson não consegue se distanciar de seus personagens, de seu amor por eles, e acaba criando uma trama que vai crescendo, crescendo e simplesmente morre no ar (talvez por isso o título)… O clímax não acontece, porque a mesa vira muito cedo no livro, e quando ela vira não ha mais emoção, só personagens perfeitos numa jornada rumo ao sucesso pessoal.

(SPOILER ALERT! A partir daqui vou liberar a franga e falar abertamente sobre pontos da história ok? Considere-se avisado!)

A única coisa que mais gostei foi o autor realmente ter criado vidas paralelas tanto para Lisbeth quanto Mikael. O “amor” deles sempre ficou um pouco forçado, com exceção talvez do primeiro livro. Gosto muito mais da amizade dos dois, da maneira como formam uma boa dupla contra “as forças do mal” (porque nesses livros é tudo muito branco e preto. Não existem áreas cinzas. O que me faz sentir falta de autores como Philip Roth e Ian McEwan, que sabem escrever protagonistas que as vezes podem ser verdadeiros filhos da p***). Gosto que no livro Mikael termina mais inclinado para um relacionamento, ainda aberto, com Rosa Figueirola (why god why eles mudaram o nome original Monica Figuerola para ROSA Figuerola? Sério…), e que Lisbeth fica sozinha, mantendo seus encontros casuais com Miriam Wu.

Pronto, isso foi o bom do livro. O resto é tudo basicamente muito irritante, incluindo o bate e volta de Erika Berger no jornal SMP com um mini-plot stalker, toda a conspiração contra Lisbeth que é o maior escândalo/evento da Suécia, e a über irritante Annika Gianinni, irmã de Blomkvist que vai salvar o dia com sua geniosidade como advogada de tudo quanto é causa que você possa imaginar. Dá nos nervos, fato.

Não tinha como o filme se salvar, o livro é pedante, ponto e acabou. Na minha opinião David Fincher vai assumir somente o primeiro filme na saga de remakes. Se ele resolver pegar esse terceiro livro pra adaptar é bom rebolar pra não irritar os fãs e fazer um filme emocionante. Porque como está não empolga e vou dizer que bati cabeça nas cenas do julgamento, que tanto deveriam empolgar. Sem contar que o filme ainda preferiu optar pela veia romântica e esquecer os casinhos paralelos tanto de Blomkvist quanto de Lisbeth e dar um final ambiguo de “quem sabe depois desse fade eles não vivem felizes para sempre, como um casal”. E isso me irritou profundamente.

Bom, mas é isso ai pessoal. Já vai dar meia noite e eu to aqui depois de uma sopa e vinho escrevendo pro nosso querido e abandonado blog. Mas essa semana foi punk! Eu e Fil estamos devendo um top 5 e semana que vem ele vem ai. Enquanto isso espero tê-los alertado quanto as sequências da Trilogia Millennium. Vamos as notas (serve pra livros e filmes, pelo menos a proporção, rs):

Os homens que não amavam as mulheres – 7,5

A menina que brincava com fogo – 5,5

A rainha do castelo de ar – 3,0


Crítica literária – Os homens que não amavam as mulheres

Junho 1, 2010

Como prometido, aqui está a crítica pra minha última leitura: o primeiro livro da trilogia Millenium, Os homens que não amavam as mulheres, do falecido Stieg Larsson. Eu estava mesmo precisando de um bom mistério, de uma dessas tramas mirabolantes, que passadas algumas páginas, você não consegue descansar o livro imaginando qual vai ser o desenrolar da história e quem está por trás de todo o mistério. Esse livro é um ótimo exemplo dessa categoria de suspenses, e seus personagens são extremamente cativantes num livro muito bem escrito (embora a tradução tenha momentos pavorosos como: “(Ela) Ficou tiririca, mas foi embora“. TIRIRICA? Fuck that!).

Devo admitir que só fiquei realmente curiosa pra ler o livro depois de assistir ao trailer americano do filme sueco. Antes eu torcia o nariz pra “Trilogia Millennium” por dois motivos: já to de saco cheio de “trilogias” e as capas me lembravam uma coisa meio “vampiresca”, e taí um gênero que já tá über saturado (mas garanto que vou ler “Deixa ela entrar” assim que conseguir colocar minhas mãos em uma cópia). Mas vendo o trailer, e a matéria que saiu no AfterEllen, resolvi comprar e ter um momento “leitura divertida”. O pior é que eu tinha pensado em ler outra coisa agora no intervalo entre os livros, mas assisti o filme no final de semana e já me deu um pequeno spoiler pro segundo livro da saga, A menina que brincava com fogo. Óbvio que já comecei a ler e já já vai ser minha próxima crítica literária, rs.

Falando um pouco da estória, acompanhamos paralelamente Mikael Bromkvist, um jornalista acusado de difamar um grande empresário sueco, e Lisbeth Salander, uma menina problemática que ganha a vida utilizando seus talentos como hacker e trabalhando como investigadora profissional para a Milton Security. Os dois acabam cruzando o mesmo caminho quando começam a investigar o desaparecimento de Harriet Vanger. Mikael porque foi contratado pelo tio da menina como última esperança de desvendar o suposto assassinato da menina, e Lisbeth, porque foi contratada pelo advogado do tio para investigar o próprio Mikael. Na verdade existem alguns subplots no livro, mas todos vão se amarrando muito bem, e os que ficam “pendentes” já estão sendo abordados no segundo livro. Então sem medo, o material é de qualidade! rs

Noomi Rapace como Lisbeth Salander na adaptação para os cinemas.

Quanto ao filme, recomendo que assistam *depois* de ler o livro. E não porque o filme seja ruim, porque não é. Na verdade é o mais fiel possível e as escolhas do roteirista e do diretor são totalmente legítimas. Mudanças foram mais do que necessárias pra transformar um livro de mais de 500 páginas num filme coerente de 120 minutos. Mas não tem jeito, muito detalhe paralelo que faz parte do “charme” do livro acaba ficando de fora. E gostei muito da escolha da atriz que interpreta Lisbeth, Noomi Rapace. Ela realmente se entregou a personagem, fisico e emocionalmente (as tattoos são fake, mas ela realmente fez os piercings na cara! Sem contar o moicano do segundo filme…). O que me faz temer a refilmagem americana (alguma dúvida que ia rolar depois que os filmes foram sucesso absoluto na Suécia? Maior bilheteria, records e mais records, críticas positivas e bla bla bla) e a escolha do elenco. Já se falou em Kristen Stewart (please don’t), Ellen Page (maybe) e Carey Mulligan (desculpa, mas não consigo ver ela nesse papel. Mas posso ser surpreendida, who knows?).

Uma pena só que Stieg Larsson morreu, vítima de um ataque cardíaco, logo depois de entregar os manuscritos da trilogia a sua editora, ou seja, nunca viu o maior sucesso de sua carreira se concretizar. Isn’t ironic, don’t you think? rs

Recomendo muito! Tanto livro, quanto filme. E em breve comento o segundo episódio da série. Segue o teaser que me “iniciou” nesse mundo:


Crítica Literária – The Lovely Bones

Maio 16, 2010

Ontem acabei de ler The Lovely Bones, livro que estava no top 5 da Wicked Sis no passado (pra ver os outros, clique aqui). E o impressionante foi que demorei quase 1 mês para lê-lo. Vocês devem estar pensando: Que bosta que deve ser então! Mas é bem o contrário.

Pra quem não viu o filme ou não leu o livro, é a história de Susie Salmon, uma menina de 14 anos que começa morta desde a primeira página. Ela foi brutalmente estuprada e assassinada num milharal perto de sua casa por um serial killer. Forte, né? O livro é todo em primeira pessoa, com a Susie contando do paraíso dela o que aconteceu e o que se passa na vida que segue.

Odeio a expressão soco no estômago. Normalmente consigo manter uma distância do que leio e assisto pra não me deixar envolver de forma tão física. Mas esse livro… puta que pariu. Vamos começar com uma criança contando sobre como seu mundo é legal, e como ela está apaixonada, e tem vontade de fazer tanta coisa com a vida, e tem tanto a aprender até que alguém te assassina brutalmente e você quer sair tanto daquela situação que seu espírito sai correndo do seu corpo. E embora o céu seja exatamente como você gostaria que fosse, você nunca vai vivenciar aquilo. E ainda vai assistir a todos na Terra passando por todas aquelas experiências, e ficar feliz por elas, mas terrivelmente triste por saber que aquilo nunca vai te pertencer.

Parece horrível? Não é o pior. Acompanhar a família, o pai que não consegue superar a morte da filha, que se afasta de tudo e de todos. Da irmã que vira uma sombra da filha que morreu, e sofre com a perda e com a vida que segue. Da mãe que sente remorso por nunca querer ter sido mãe e acha que está sendo culpada por isso, e decide abandonar tudo. Do irmão que tem que cuidar do pai, e principalmente cuidar das ausências, dos vazios, dos buracos.

A família inteira não consegue move on. Se apegam a Susie tentando achar o assassino, tentando achar seu corpo, ao ir pra escola, ao fugir, ao preservar seu quarto, ao se preocupar se algum dos outros filhos ainda não chegou em casa, ao olhar pela janela e ver um vulto, ao ver uma menina com seu irmão e pensar no que está sendo perdido. E eu confesso que tive o mesmo efeito. I couldnt let Susie go. E por isso enrolei pra terminar o livro. Li diariamente, mas bem pouquinho. Era reconfortante ter ela ali, saber de sua presença. Mas ontem eu terminei. E confesso que fiquei feliz. Triste e feliz. É um ótimo livro, eu recomendo.

O filme não é maravilhoso, mas me ajudou muito pensar na Saoirse Ronan como Susie Salmon. Eu me importava desde o início, e o livro constrói bem sua vida antes de ser assassinada. Rachel Weisz é perfeita pra alguém descrita como Ocean Eyes. Eu certamente mergulho neles e sinto toda a intensidade necessária. Infelizmente eles desenvolvem muito mal a personagem. No livro ela é incrível, pra melhor e pra pior. Suavizaram muito no filme. Pelo menos não escalaram uma Evangeline Lilly pro papel (piada interna).


Crítica literária – Dead and Gone (9º livro da saga “True Blood”)

Maio 11, 2010

*sem spoilers* (se é que isso é possível, rs)

O saga True Blood está entre aspas porque esse não é o nome da série de livros de Charlaine Harris, mas como a série acabou ficando mais popular que os livros aqui no Brasil, achei que ficaria mais chamativo dessa maneira. That being said vamos ao post:

Eu tenho que admitir que também só fui atrás dos livros da série The Southern Vampire Mysteries depois de assistir a primeira temporada de True Blood. Eu estava bem preconceituosa com filmes, séries e livros de vampiros pós-trauma-crepusculo, mas o fato do mesmo Allan Ball, de Six Feet Under, Beleza Americana e Towelhead, estar por trás da adaptação da telinha me fez reconsiderar. Afinal, ele nunca tocaria num material minimamente digno, que pudesse servir de pano de fundo pra toda crítica ácida e ironica sobre a hipocrisia humana, que o mesmo já tinha exibido nos trabalhos anteriores.

Devo admitir que estamos nos preparando pro lançamento do 10º livro da saga, e já está se esgotando. Não sei se sou eu, mas acho que a série foi bem até o 4º ou 5º livro. Depois disso ficou muito na mesmice, pendendo mais pros namoricos da Sookie, que pra ser sincera, ficou uma chatonilda. Não uma Bella Swain, mas talvez uma Claudia (Entrevista com o Vampiro)… Você fica querendo mandar ela calar a boca e parar com tanta repetição. Porque séries longas produzem o efeito “amnésia”, se não nos leitores, na própria autora, que insiste em fazer sempre os mesmos comentários, como se fossemos idiotas vivendo um bad case of memento.

A única coisa que ainda salva é meu querido diliça Eric Northman (Alexander Skårsgard, em TB) que se mantém interessante e retêm algum mistério. Por isso ele acaba virando o objeto de desejo de todas as leitoras (e leitores bibas), que já chegaram a mesma conclusão: o Bill é o vampiro mais chato ever! Pra quem acompanha a série estamos começando a viver esses momentos de “alguém enfia uma estaca nesse cara” agora. E o pior, não vão estacá-lo tão cedo, já que ele e Anna Paquin estão noivos na vida real. Se bem que Chase e Cameron, de House, também eram, e todo mundo sabe no que deu (= Cameron foi trabalhar na Broadway! Okaaaaaaaay, let’s see where that takes her).

O lado negativo é “Pra onde foi a Pam?”. Sério, a sidekick do Eric, a soccer mom vampire, Pam é uma das personagens mais ácidas e carrega consigo aquele ar de “I don’t give a flying fuck”, garantindo seu lugar na lista dos Lost Twins. Nesse livro ela mal aparece, o que é um absurdo. Mas pensando positivamente, a atriz Kristin Bauer acabou de ser anunciada como integrante do elenco principal da série, o que significa que ela vem ai! Clap clap clap. E vocês lembram do minisode que eu postei aqui no blog semana retrasada, certo? A coisa promete.

Voltando ao livro, o 10º da série sai em ainda esse mês, se é que já não saiu nos EUA. E não, não é o último da saga, o que me dá ainda mais “medinho”. Será que eu vou ter saco e fôlego pra acompanhar até o final? Acho bom a Charlaine Harris matar um personagem grande (tipo o Bill, rs) pra história dar uma sacudida.

Por hoje é só pessoal. Pra não ficar nessa monotonia, ai vai o 2º minisode de True Blood, featuring Jessica, a vampira que não existe nos livros, e que é uma das melhores coisas da série (thank god for Allan Ball!):


Crítica literária: Como a geração sexo-drogas-e-rock n’ roll salvou Hollywood

Abril 19, 2010

Não me lembro exatamente quando foi a primeira vez que eu ouvi falar desse livro, mas coloquei na cabeça que ia ler quando meu chefão-mor recomendou o filme pra minha chefinha, rs. E o que ele contou do livro me deixou curiosa pra saber mais, e também porque meu chefe sempre espera que eu saiba tudo de cinema (seja nacional, americano, japonês, clássico, o que for) e eu odeio quando não sei do que ele tá falando. Sem contar que ele nunca ia recomendar alguma coisa que não fosse acrescentar ao meu conhecimento da industria de cinema, e que por trás disso estivessem bolinhos de dinheiro versus o talento e megalomania de diretores, que pra ser bem sincera não deve ter mudado tanto assim. Pelo menos eu conheço algumas pessoas do cinema brasileiro que se encaixam bem nessa categoria de “desumanos filhos da p*”.

Quanto ao livro, é genial. Ele realmente te faz entender o cinema dos anos 70 de Hollywood, que foi uma época de muita transformação, onde os diretores ganharam muito poder, e puderam realizar verdadeiras obras primas. É a “ascensão e queda do Império Romano”, nesse caso o momento onde os filmes de auteur se instalaram nos EUA, que vivia uma época de ode ao cinema europeu da nouvelle vague e do realismo italiano. Porém os americanos queriam criar sua própria identidade e foi isso que Coppola, Bogdanovich, Friedkin, e outros tentaram criar. E foi o ego e o abuso de substâncias ilícitas que provocaram a queda desses mesmos diretores. Dentre eles só vingou o cinema dos pipoqueiros, dos que buscavam o entretenimento massivo, a diversão, e os filmes barulhentos, vide Steven Spielberg e George Lucas.

Tubarão (1975) de Steven Spielberg, marca o nascimento do "cinema blockbuster".

E vou dizer que eu realmente aprendi muito lendo esse livro. Não só aprendi fatos históricos da indústria americana, fiquei pasma como conhecia pouco os personagens e os nomes apresentados no livro. Não fazia idéia do que era a BBS e sua importância pra esse cinema. Também não sabia que George Lucas tinha sido apadrinhado por Coppola, tinha sido seu assistente de direção e parceiro da produtora Zoetrope. Não sabia das maluquices de Bob Towne, Paul e Leonard Schrader, e muitos outros nomes que até então pouco significavam pra mim. E o mais importante, foi um grande head’s up pra qualquer pessoa que pense em entrar na indústria de cinema, seja como roteirista, diretor, produtor, ou distribuidor.

"A última sessão de cinema" (1971)

O livro de Peter Biskind é uma leitura obrigatória pra qualquer cinéfilo ou amante do cinema. Sem contar que é uma mini-enciclopédia de filmes que fizeram história e merecem ter visibilidade outra vez, como o belíssimo “A última sessão de cinema” (The Last Picture Show, 1971) de Peter Bogdanovich, ou o ultra-clássico “Touro Indomável” (Raging Bull, 1980), que por incrível que pareça foi um fracasso de bilheteria em sua época.

Acho que o tom do livro é nostálgico, de uma época em que o cinema norte-americano se tornou uma promessa de arte, uma referência de qualidade na sétima arte, e como o “tiro no pé” das grandes bilheterias elevou a ganância dos estúdios a sufocar a arte e concentrar nas fórmulas certas, nas continuações. Como é ainda hoje: os complexos de cinema, que exibem sempre os mesmos tipos de filmes, com 7 salas que exibem o mesmo filme, e não se abre espaço basicamente para a inovação e o desafio, que acredito serem extremamente necessários para excluir o cinema da categoria “lixo comercial/mental”.

Recomendo muitíssimo! Boa leitura a todos 😉