Broadway – Dia 01 – Hedwig and the Angry Inch

Janeiro 28, 2015

O que fazer quando ao chegar em NY em um sábado, você já perdeu todos os Rush Tickets possíveis, está quase de noite e você ainda não tem ingresso pra peça nenhuma? O jeito foi apelar pro TKTS da Times Square, coisa que eu odeio e evito ao máximo. A fila é sempre enorme, mas confesso que anda bem rápido. Também faço mea culpa porque me diverti muito quando um assistente da fila perguntou pras brasileiras atrás de mim o que elas queriam ver e elas responderam Mamma Mia e ele só mandou um “Damn Turists”. Confeço que ri. E peguei uma dica de “Nevermore”, um musical novo Off-Broadway que o pessoal da fila estava falando muito bem. Vou tentar encaixar.

Captura de Tela 2015-01-28 às 03.14.40Fila enfrentada, ficou a dúvida: O que assistir? Eliminando tudo o que eu já comprei, e tudo o que eu possivelmente conseguirei via Rush Tickets, tudo o que vale a pena comprar full price, e principalmente o fator de que gosto de começar e fechar bem, não podia escolher outra que não Hedwig. Talvez eu conseguisse por Rush, mas essa merecia um lugar melhor, uma visão perfeita… queria estar mais perto do palco, queria ver o John Cameron Mitchell de perto, queria sentir a vibração de assistir um dos atores/diretores/autores que mais admiro interpretar essa personagem tão incrível.

Pra quem não sabe, Hedwig estreou em uma boate em NY em 1994 e demorou alguns anos até estrear off-Broadway em 1998, ganhando vários prêmios. Em 2014, foi montada enfim na Broadway com Neil Patrick Harris como a protagonista (JCM afirmou que não queria fazer, que não queria o compromisso de ficar meses em cartaz, fazendo 8 shows por semana). Originalmente, o personagem protagonista seria Tommy, que é levemente inspirado no próprio JCM, um filho de militar, gay, que tinha uma babá/prostituta alemã, mas aos poucos Hedwig se tornou a personagem principal. JCM escreveu o book, com músicas de Stephen Frask. Na peça, acompanhamos Hedwig stalkear Tommy, seu ex-namorado, que roubou suas músicas e a abandonou. Já tentei algumas vezes escrever a sinopse de Hedwig mas nunca consigo. São tantos os temas que transbordam durante a peça… o não pertencimento, o deslocamento, a tentativa de Hedwig se tentar encontrar sua metade, de entender o que é a metade… a forma como ela dá uma parte de si tentando encontrar esse amor, essa aceitação, e como ela vai ficando amarga… Vivendo sobre o motto de que “to be free one must give up a little part of oneself”, ela acaba dando demais.

Fui, estava com medo, mas fui com medo mesmo. Medo de me decepcionar. São anos e anos de expectativa, um filme que marcou minha vida, uma das melhores atuações que eu vi no cinema, a melhor trilha sonora, e ano passado eu tinha assistido com o Neil Patrick Harris, o que por si só já é big high heels to fill. NPH tinha sido fenomenal. Ou seja, JCM tinha um pedestal pra escalar, embora eu soubesse que ruim dificilmente seria. Achei que não viveria pra ver o dia que assistiria JCM fazendo a peça.

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E o que dizer? Desde a entrada o público foi ao delírio. Percebi logo ali, de cara, que eu não era a única pessoa que sonhava em ver o JCM fazendo Hedwig na Broadway. Nem de perto. Era êxtase total. Chegou a um ponto onde o público levantava pra aplaudir no meio da peça. E merecido. Ao final da peça, não sei dizer quem estava mais satisfeito, mais destruído emocionalmente pela viagem que percorreu, JCM ou o público.

Sobre as diferenças da versão anterior pra essa, são tantas que é até difícil enumerar… as piadas com o público mudam muito, até pq é quase um stand up, muitas piadas com fatos atuais… Eu senti JCM mais a vontade, como é de se esperar. Menos “ensaiado”. Dava pra perceber que ele fugia muito mais do roteiro, brincava mais livre… Eu sentia NPH interpretava muito bem Hedwig, mas JCM é Hedwig, e isso é muito difícil de competir. Aliás, os momentos menos inspirados da versão de Mitchell é quando ele parece “obrigado” a seguir uma coreografia… NPH é Broadway, combina com ele. Os saltos, os movimentos coreografados de microfone… lindos, e certamente ele pula e cai todo dia no mesmo lugar. E não tem nada de errado com isso. Mas JCM é punk rock, ele não acerta as notas como costumava fazer, nem como o NPH fez, mas ele é puro coração, sentimento. A cada música você vê aquele personagem sendo despido (até literalmente) e é emocionante demais. Não tem como não sentir que é o próprio JCM se despindo, se doando, entregando uma parte de si pra platéia, vivendo aquela catarse. Pra quem estiver na Broadway pelas próximas semanas, vale muito a pena.

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PS: JCM é muito tímido, e no final ele não assina as Playbills, nem tira selfies, mas sai distribuindo balas autografadas, as mesas citadas na letra de “Sugar Daddy”.

Destaques

Nossa, escolha de Sofia… Amo tanto todas as músicas dessa trilha… Mas acho que a minha favorita, e principalmente, a que ficou mais foda nessa versão da Broadway atualmente, é The Origin of Love (mas o que segue é a versão do filme, com o JCM)

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Top 5 – Melhores Atuações Masculinas da década

Fevereiro 25, 2010

Então, essa semana a divisão ficou assim: Eu falo das atuações masculinas da década que se passou (2000 a 2009) e a Wicked Sis falará das femininas. Isso porque ela é injusta e me privou de falar das divas que tanto gosto. Mas tudo bem, vou colocar minha máscara de crítico de cinema muito culto e cheio de coisas a dizer e falar sobre algumas das maiores interpretações masculinas dos últimos anos. Comecemos bem, por um filme espanhol:

5- Javier Bardem – Mar Adentro (2004 – Alejandro Amenabar)

Em primeiro lugar, quero dizer que uma grande atuação diz muito sobre o seu diretor, quase tanto quanto ao ator, e acho esse um desses casos clássicos. Amenabar (que já tinha feito Os Outros e Abra los Ojos, o Vanilla Sky original) fez um filme lindo, reflexivo, e Javier foi mais do que apenas a cereja do bolo, ele é o bolo inteiro. O filme se sustenta na atuação dele, e devido a sua grande eficiência, torcemos pra ele morrer e sofremos com isso ao mesmo tempo. Javier podia ainda estar nessa lista facilmente com Onde os Fracos não tem vez, Vicky Cristina Barcelona, Segunda-Feira ao Sol, e Antes de Anoitecer, fora as grandes atuações da década anterior, na fase Almodovar dele, mas perdeu uns pontinhos com Amor nos Tempos do Cólera (blaaaaargh (som de vomito)) e As Sombras de Goya (Blaaaaaargh).

4- Daniel Day Lewis – Sangue Negro (2007 – Paul Thomas Anderson)

Mais uma grande atuação, em um filme com uma grande direção. Paul Thomas Anderson não apenas saber escolher bem seu elenco como sabe extrair o melhor possível dele. E quando colocam um dos maiores atores vivos nas mãos dele, o resultado é Sangue Negro, um dos melhores filmes que eu vi na década passada, e meu favorito no Oscar daquele ano. Day Lewis tava visceral, me dava medo, e ainda assim uma certa atração de tentar desconstruir um personagem tão foda. Infelizmente, a década dele foi isso (porque eu odeio Gangues de Nova York, e Nine… bem, é Nine, gosto, mas longe de qualquer top da década). Ganha pontos por não ter feito nenhum Transformers ou qualquer lixo que o valha no meio do caminho.

3- Sean Penn – Sobre Meninos e Lobos (2003 – Clint Eastwood)

Mais um grande diretor trabalhando com um grande ator. E aqui eu coloco quase um empate técnico com o Harvey Milk que Sean Penn fez brilhantemente. Ambas me tiraram lágrimas, me arrepiaram, e me lembraram porque o cinema é foda, e virou grande parte da minha vida. Sean Penn é completo, é a arte de atuar pura, é foda demais. Também destaco dele na década passada Uma Lição de Amor (pai doente mental da Dakota Fanning) e 21 Gramas, mais um filmaço.

2- John Cameron Mitchell – Hedwig (2001 – John Cameron Mitchell)

Esse é um pouco mais fácil de falar. Ele só fez isso! Como ator, pelo menos. Como diretor, fez Shortbus, que é interessante em diversos níveis, mas não se compara a Hedwig. Esse filme foi mais do que abordado aqui, todo mundo sabe que o amamos do começo ao fim, cantamos suas músicas, e idolatramos o seu roteiro. Mas tenho que dizer, John Cameron Mitchell me levou a um outro lugar com sua atuação. Me comoveu como nenhum outro (e isso inclui o primeiro lugar) e eu senti uma vulnerabilidade num filme como eu nunca tinha sentido. É perfeito!

1- Heath Ledger – The Dark Knight (2008 – Christopher Nolan)

Humm, esse com certeza não estará no top 10 das próximas décadas. Pensei muito se valeria a pena dar o ouro pra ele. Tirando o Coringa, ele fez coisas boas e coisas ruins. Eu tenho dificuldades em perdoar Four Feathers, O Patriota (a menos que você considere esse uma sátira aos filmes patrióticos americanos. Aí se torna engraçado), Casanova, Coração de Cavaleiro, ou até mesmo o Candy (que acabou se tornando uma piada de mau gosto pra quem morre de overdose, mesmo que de remédios). Mas a seu favor, tem I’m not there, que é bem legal, A Última Ceia (ok, ok, Halle Berry, devolve o Oscar, bla, bla bla, mas o filme é bom, e ele está bem no filme), e principalmente Brokeback Mountain. Heath entendeu Enis del Mar de uma forma tão linda, e sua construção é tão delicada, e sensível… dá vontade de chorar só de lembrar. Talvez esse tenha sido parte dos seus problemas, se entregar aos personagens tão sem limite, tão de cabeça, que isso deve pirar qualquer um. E acho que isso é o que faz um grande ator, é esse o material, você sentar por 2h numa cadeira assistindo a pessoa atuar, e em momento algum você pensar no ator, se envolver na história e aceitar que todos aqueles sentimentos e acontecimentos são reais. Enis e o Coringa tem isso em comum, Heath simplesmente desaparece, e em personagens totalmente opostos, me causando calafrios por razões extremamente diferentes. O Coringa transcende, é um psicopata magnético, não tem como não ficar fascinado. Heath vai fazer muita falta, mas uma coisa ninguém tira dele. A primeira década dos anos 2000 foi dele a maior atuação.

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Destaco também algumas outras atuações, que não estão nesse top 5 simplesmente porque só cabem 5. Mathieu Amalric (O Escafandro e a Borboleta) não entrou porque só cabia um estrangeiro que passa o filme inteiro numa cama e ainda assim blow me away. Mas ele era meu sexto colocado. Philip Seymor Hoffman com Capote e Dúvida também foram fodas. Joaquim Phoenix em Johnny e June e Gladiador. Ed Harris em As Horas. Mickey Rourke por o Lutador. Robert Downey Jr com Trovão Tropical e Johnny Depp com o Capitão Sparrow e o Willy Wonka provaram que bons atores fazem milagres mesmo em filmes rasos. Felicity Huffman em Transamerica, Viggo Mortensen em Eastern Promisses, George Clooney em Amor sem Escalas, Emile Hirsh em Into the Wild, Casey Affleck em O Assassinato de Jesse James. Ok, devem ter muitos outros, mas já roubei demais colocando todos esses aqui. E vocês, quais gostam mais?


Crítica – Hedwig – Rock, Amor e Traição

Junho 22, 2009

hedwig_rock_traicaoDurante boa parte da minha adolescência, eu esperava ansiosamente pela revista da TVA. Lia todas as sinopses de filme, a procura de algum sinal de homossexualidade. Lembro de estar sempre ávido por mais informação, por identificação, algum sinal de normalidade em tudo que se passava na minha cabeça. E embora eventualmente eu achasse pérolas como “Beautiful Thing” e os meus primeiros filmes do Almodóvar (sempre no Eurochannel), o mais comum era assistir reprises de “Priscila” e “Wong Foo”. “Nada contra, clap, clap, to na mesma luta, mas eu não me identifico” (by André Fischer). 

Então, em 2001, já com meu primeiro namorado, quando ouvi falar em um filme sobre um transsexual obcecado por seu ex, que roubou suas composições e se tornou famoso as suas custas, esperava qualquer coisa, menos o que eu encontrei. 

Hedwig é muito mais que um filme gay. Ele vai além de qualquer nicho. Ele não é apenas um filme musical. Hedwig tem muitos níveis, e é maravilhoso em todos eles. Sua porção comédia, recheada de um humor ácido, é delicioso, e fundamental na construção do personagem. Assim como as músicas endossam os diálogos do filme brilhantemente. 

Tudo no filme está no lugar correto, de forma sensacional, e ainda assim, são coadjuvantes perto da interpretação de John Cameron Mitchell, também diretor do longa. Eu considero que é uma das melhores interpretações da década, e até hoje me emociono ao assistir. Na cena final, com Hedwig sem peruca, maquiagem borrada, eu sempre fico comovido. É um filme que me toca de uma forma diferente, ele me pega pela mão e me mostra sentimentos e sensações muito intensos.

Acho que no fundo, tem filmes que são assim. Eu lembro de assistir Marcas da Violência e pensar: é um filme bom, mas não me toca. Sei admirar as qualidades do filme, mas não é o MEU filme. Hedwig é o oposto. É quase chave-fechadura. Hedwig desperta coisas diferentes em mim. Tenho uma relação totalmente especial e única com ele, que eu sei que ninguém mais tem. Ele dialoga comigo. Naquele momento final, ele olha pra Tommy, e eu olho pra ele. É como quando eu saí chorando do cinema quase gritando “I CHOSE LIFE” ao final de As Horas. Filmes podem fazer isso com a gente, não é? E John Cameron Mitchell fez.

Nota: 10,0